Categoria: Cidade Grande

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3 de Copas

Eram três andando pela rua. Sorriam.

Caminhavam entre os prédios altos e as ruas estreitas da capital, a sombra dos prédios mantinha o caminho gelado, assim como a chuva provocada pelos inúmeros aparelhos de ar condicionado.

Já tinham quase trinta, mas ainda eram crianças, empurravam um ao outro como quem, por graça, faz o outro perder o equilíbrio. Eram amigos, confidentes… amantes.

Encontraram-se há pouco tempo, antes disso andavam separados a procura de um, mas foi nas curvas do dois que acharam suas metades. Definitivamente eram plural.

Na rua andavam sem medo, viviam acima de tudo. O povo em volta por sua vez temia. De alguma forma a existência daqueles três os amedrontava, o desejo de expurgar aquilo do todo era maior, maior que o amor que poderia existir fora dos limites da normalidade.

Aqueles três não eram homens ou mulheres, eram apenas crianças com seus quase trinta.

Os prédios não são feitos para as crianças.

Sinto…

Foto: Leco Vilela / Edição: Camila Stella
Sinto falta de um país singelo, sem medo e com zelo pela alma alheia. Sinto falta dos bons tempos de menino, onde o pique era um poste e não blindagem para te proteger dos inimigos.
Sinto falta de acordar ao som de pássaros no pé da minha janela, sinto falta de sentir a respiração do vento, de ouvir a árvore falar. Sinto falta das sutilezas, dos detalhes, do tempo.
Saudosismo que não é só meu, que vejo em vários cantos e ouço em outros cantos. Esse jeito de viver a vida assim calado, amado, mesmo que por si, é um jeito nostálgico de querer de volta a vida que me foi roubada, é do sútil que tenho falta.
Daquele sorriso faltando um dente de leite, do cheiro de bolo a gritar no forno, sinto falta não da minha juventude, nem dos meus tempos de menino, sinto falta é das crianças que enxergam vilas em caixas de sapato.
Parece que de um jeito torto o mundo perdeu o posto, perdeu respeito, perdeu amor. Parece que no fundo do mundo só a lava e não outro mundo, como há tempos atrás se dizia. Parece que tudo perdeu a magia. E aquele menino mirrado, que mesmo apanhando continuava a conversar com a sua árvore, ficou esquecido e empoeirado nas estantes do tempo.
Sinto. Por isso escrevo este manifesto de peito aberto, pela retomada do simples afeto, pela volta de algo simplesmente belo, por algo simples e não complexo.
Foto: Leco Vilela / Edição: Camila Stella

A Minhoca de Metal

por Leco Vilela
Dentro da minhoca de metal você vê a vida passar e nem se percebe ao mexer, nessa rotina aturdida de todos os dias, nem ouve o som do tilintar dos trilhos.

Sentado diante da janela dos olhos da minhoca, você vê a paisagem se distorcer num ZOOM. As imagens se formam e se dilatam enquanto os olhos piscam. A velocidade nunca cessa.

E nesse ritmo a cada manhã a minhoca come para depois regurgitar cada um de nós, aqueles que não deixam a cidade parar.

Canibalismo

Respiro, em tempos sem umidade essa é uma tarefa difícil. Abro a janela em busca de ar, o vento bate suave e frio no meu rosto. A noite parece fria, mas mesmo assim meu corpo sua.
Em gotas sinto o calor descer a espinha dorsal do meu corpo, provocando um arrepio estranho. É nessa hora que o mocinho deve acender seu cigarro?… A cena pede isso.
Confuso deixo a janela aberta e vago com meu corpo nú pela casa, olho dentro da geladeira e não encontro nada que me encante, que alimente essa necessidade de algo sem cor e sem nome. Talvez, mas só talvez eu não queira nada. Talvez, mas só talvez eu queira eu. Eu queira vivificar meus sonhos e anseios.
Falta-me coragem e o suor continua a me correr nas costas, aumentando a minha necessidade de mim mesmo, quero comer-me.

O Elevador

Ela, presa em cinco metros quadrados. O escuro e seis vultos de ombros largos. Então, como quem esperava pela dor, ela recebe o amor. Um beijo que lhe rodou a cabeça e lhe deixou as pastas caírem no chão.

Seu coração acelerado a fazia tremer levemente, mas no escuro ninguém se denunciava, nem mesmo seu tremor. Uma vida seca era exposta a cada segundo que ela permanecia presa ali. Paredes de metais não são naturais, pensava. Quanto tempo pudera viver assim? Quem secretamente lhe desejava? E por que de repente se sentia diante do liquido viscoso de uma barata como em seu livro favorito?

A dúvida, de repente só isso existia. Cinco metros quadrados se transformaram em centímetros quadrados. Sufocava. E como se seu peito abrisse e se enchesse de ar a luz se acendeu. A porta se abriu. Seis homens saíram. E ela, pois ao chão recolhendo os papeis caídos como Terezinha a espera de quem lhe de a mão.