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Meu primeiro beijo gay

Eu tinha 16 anos, um moicano com tonalizante vermelho, usava uma camiseta preta com uma caveira com a língua pra fora, uma jeans surrada e um par de all stars.

Eu estava com alguns amigos na paulista durante a Parada Gay de São Paulo, quando o trio elétrico da A Loca, passou por nós. Era o único trio que tocava um pouco de rock então eu deixei meus amigos e fui pra trás do trio dançar.

Quando percebi um homem com o cabelo liso e comprido atrás de um trenzinho  vindo em minha direção. Ele me olhava. Eu sorri. Deu pra ver seus neurônios repensarem diversas vezes se deveria ou não me beijar, eu era “tão novinho”. Me beijou. Foi tão certo. Meu corpo finalmente se encaixou. Na época eu não usava barba então a pele áspera do rosto dele arranhou minha pele lisa. Os pelos do braço dele encostaram nos meus, nossos peitos e barrigas próximos e a língua dando piruetas dentro e fora das bocas.

Ele foi embora e eu fiquei, mudado, diferente. Olhei pra trás, para onde estavam meus amigos, todos héteros, e eles comemoravam e acenavam pra mim, dedões pra cima, sorriso no rosto.

Depois disso foi uma questão de “Leco 1, Leco 2, Leco 3 e 4… Caralho Leco, 5?!”.

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Separação

Num dia você está pregando pregos na parede, escolhendo móveis para ocupar os espaços vazios e no outro suas coisas estão em sacos e caixotes na calçada e anos de um relacionamento se fecham no porta-mala de um carro.

As mãos se separam, as bochechas se molham, o coração aperta.

Após dividir minha vida com alguém durante tanto tempo e ter que seguir meu caminho sozinho, o pior dia pra mim passou a ser o domingo, silencioso e tedioso domingo. O relógio corre devagar demais e a cada minuto uma nova armadilha se apresenta.

Ressignificar esse dias vai levar mais tempo do que eu imaginei.

Você sente falta de se deitar no sofá e olhar a janela enquanto pessoas brincam na quadra da pracinha a frente, sente falta dos quadros que não foram pendurados, do espelho do banheiro, do jeito que a água do chuveiro caia no seu corpo. Não, não são simples saudades de objetos, são saudades do tempo que foi dedicado, do carinho que foi pensado para cada um daquelas bugigangas.

Saudade de chegar em casa e ter com quem conversar, mesmo sabendo que aquela amizade pode nunca mais voltar a ser.

Com a distância você aumenta o volume das suas vontades que a muito foram abafadas pela esperança da reconciliação e vai percebendo o quanto tu se sacrificou, cedeu, engoliu, pra tentar ser feliz. E não importa quanto as pessoas digam que tudo vai ficar bem, você segue mal, o que não quer dizer que você não irá sobreviver, muito pelo contrário.

Sabe quando você quebra a perna e fica mancando, mas com o passar do tempo isso torna-se o normal? E quando você tira o gesso e em menos tempo ainda você percebe o padrão de normalidade mudando de novo?

Só assim pra entender que normalidade não é um conceito sólido.

Você se sente sozinho, você se sente angustiado e até um pouco diminuído. Você acha que todos os teus amigos te olham com aquele olhar de “coitado”, mesmo que não o façam, você ainda acha. Você se culpa por não ter sido mais forte, mais paciente, mais tolerante, que talvez se tivesse esperado um pouco mais as coisas teriam se acertado. Tudo isso ao mesmo tempo que você se sente livre, que entende que deu o seu melhor.

Terminar uma história nunca é fácil, fácil mesmo é terminar um texto.

*** Texto postado originalmente em – http://www.welove.com.br/separacao/
coisas, flores, Vida

Muda

Hoje eu não acordei triste e nem contente.
Hoje eu acordei diferente.
 
Ao abrir os olhos, em direção das persianas fechadas, descobri o motivo da madrugada mal dormida.
 
Havia passado a noite redecorando a alma, tirei dali toda decoração inútil, despreguei cada orgulho e cada ato egóico, me livrei do fardo pesado da mágoa. 
 
Me perdoei.
 
Na parede branca da minha alma deixei meu retrato de criança cercado por boas memórias do meu passado.
 
Só depois dessa árdua faxina que me dei conta de que meus olhos estavam embaçados com os meus fantasmas e que por isso me viam bem pior do que eu realmente era.
 
Floreci.
 
 
coisas, Vida

Canhoto

As pontas soltas do teu cabelo estão se desprendendo do meu peito
Peito repleto de pontas soltas, que se vão com o tempo.

 

Estou ficando pelado de passado,
Parece que as portas que eu deixei aberta estão se fechando enquanto me afasto pra dentro de casa.

 

Estou ficando sozinho de forma exponencial. To expurgando cada dúvida dos meus ventrículos. To mandando você embora de maneira inconsciente, embora de uma forma bem consciente.

 

Memórias são leves substâncias que carrego comigo, mas para que a culpa? A dúvida de um futuro alternativo? A nostalgia de um passado que já não deu certo? Maldição do e se…

Sinto-me caminhar para algo diferente, direção nova que não via antes, me posiciono na bifurcação e escolho o caminho da direita do meu peito, é tempo de descansar meu lado esquerdo.


* Imagem por Leco Vilela.

coisas, destino, Poema, poeta, Vida

Quiromancia

Quem sabe o que é um poeta? Quem são? Onde vivem? Do que se alimentam? Como se proliferam? A gente não encontra essa resposta no Globo Repórter.
 
Pesa-me as mãos entre as teclas. Não escrevo a muito tempo, deixei minha voz calar na esperança de ignorar a verdade. Não escrevi sobre você, pois sabia que ao faze-lo descobriria seu distanciamento, por isso calei-me.
 
Meu poema pra mim é como a palma de uma mão, onde eu sou a cigana com calos, rugas profundas e cheiro de almíscar. Leio meu futuro e meu passado, entendo meu presente. Entre minhas estrofes sem ordem ou cadência eu me vejo no vagar dos dias. Por isso calei-me, por isso deixei meus dedos mudos nesse tempo em que ficamos juntos.
 
Via a distância dos teus olhos, e sentia tua dificuldade em se entregar pra mim. Também vi você lutar por mim quando a rainha já estava caída, você não gosta de perder.
 
Me conheço, sincero, entre meus versos, cada palavra que solto, escrevo, é uma pedaço de mim que sai. 
Hoje acordei escrevendo sem medo os rascunhos que a muito guardei, minhas dúvidas não cessaram com meu silêncio. Então despi minhas verdades diante das teclas, e deixei fluir meu veneno. Espalhei minhas lágrimas trancadas e deixei a baba escorrer por entre meus lábios. Chorei.