Categoria: Crises

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Conto, Crises

A Lembrança

Por Leco Vilela

Hoje passei em frente a casa do meu primeiro namorado, primeiro mesmo, daqueles que se anda de mãos dadas no parque.

O sol forte a iluminar meu rosto, me faz voltar uns quatro ou cinco anos. Lembrei-me de nosso primeiro encontro, ele havia cozinhado para mim, ainda sinto o gosto dos legumes banhados no azeite com alecrim. 
O cheio forte e característico, tomava conta de praticamente toda casa, o incenso que queimava na sala misturava as fragancias com harmonia.

Depois do vinho e do jantar me pos deitado em sua cama, tirou minhas roupas deixando em meu corpo somente a cueca que se salientava. Me abraçou, me beijou e sorriu, dormimos assim com o peito colado a sentir as batidas sonoras de um coração.

E assim como veio, se foi. Uma nuvem havia coberto o sol, me trazendo de volta dos meus devaneios. Percebi o quanto eu evitava mimos e carinhos desse meu herói Guarani. Não é que eu não gostasse ou me irritasse com seu toque, era algo que no intimo só percebo agora. O avesso ao carinho do toque era falta de hábito, fruto de uma infancia fria e desabitada da mão que corre a face em gesto lento.

Canibalismo

Respiro, em tempos sem umidade essa é uma tarefa difícil. Abro a janela em busca de ar, o vento bate suave e frio no meu rosto. A noite parece fria, mas mesmo assim meu corpo sua.
Em gotas sinto o calor descer a espinha dorsal do meu corpo, provocando um arrepio estranho. É nessa hora que o mocinho deve acender seu cigarro?… A cena pede isso.
Confuso deixo a janela aberta e vago com meu corpo nú pela casa, olho dentro da geladeira e não encontro nada que me encante, que alimente essa necessidade de algo sem cor e sem nome. Talvez, mas só talvez eu não queira nada. Talvez, mas só talvez eu queira eu. Eu queira vivificar meus sonhos e anseios.
Falta-me coragem e o suor continua a me correr nas costas, aumentando a minha necessidade de mim mesmo, quero comer-me.

O Elevador

Ela, presa em cinco metros quadrados. O escuro e seis vultos de ombros largos. Então, como quem esperava pela dor, ela recebe o amor. Um beijo que lhe rodou a cabeça e lhe deixou as pastas caírem no chão.

Seu coração acelerado a fazia tremer levemente, mas no escuro ninguém se denunciava, nem mesmo seu tremor. Uma vida seca era exposta a cada segundo que ela permanecia presa ali. Paredes de metais não são naturais, pensava. Quanto tempo pudera viver assim? Quem secretamente lhe desejava? E por que de repente se sentia diante do liquido viscoso de uma barata como em seu livro favorito?

A dúvida, de repente só isso existia. Cinco metros quadrados se transformaram em centímetros quadrados. Sufocava. E como se seu peito abrisse e se enchesse de ar a luz se acendeu. A porta se abriu. Seis homens saíram. E ela, pois ao chão recolhendo os papeis caídos como Terezinha a espera de quem lhe de a mão.

Crises, Leco Vilela

Crises

Crises, financeiras, emocionais, psicoterápicas, existenciais, com o cabelo, de moda, dos 30, dos 40, dos 60, estéricas, de rinite, bronquite, ite, ite, ite… Crises de identidade, de energia, arquitetonicas, de temperatura, asmáticas, de criatividade, dramática, dramatúrgicas, de memória, de um relacionamento… Crises infinitas que se múltiplicam no vacoo e são transmitidas a todos nós…

… Escrever por si só já é um ato de crise, não que ler não seja é claro.