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Categoria: Crônica

Dor

Fico feliz que você saiba o que é dor, pois dor como essa que a gente sente é difícil de superar, é como se alguém puxasse as suas entranhas e apertasse, mas não para por aí, passado um tempo, estas entranhas apertadas, são puxadas, esticadas e retorcidas.

Puxa-se com tanta força que sua garganta estica, seca, tornando impossível o som do grito. Suas lágrimas secam, nem tanto pelo esgotamento do choro, mas pela intensidade com que roem suas entranhas.

Te extirpam o ventre e as verdades, tudo exposto, ferida aberta. Suas vísceras espalhadas pelo chão, é assim que seres humanos quebram, não há cola no mundo que junto estes cacos além da nossa própria vontade. Ah! Como é difícil ter vontade.

Às vezes passam-se anos com os órgãos pra fora sendo carregados pelo chão como sacos, demasiadamente pesados para se carregar nas costas.

Talvez por um golpe do destino, talvez por uma gentileza qualquer do tempo você encontra essa vontade.

Colocar suas entranhas pra dentro, órgão por órgão, respirar finalmente com o pulmão no seu lugar. E só então ter forças para encaixar a última peça, seu coração, no lugar d’onde nunca deveria ter saído.

Nenhuma alma merece isso.

Mas mesmo ao mesmo tempo são tantas almas que sobreviveram a isso.

Nossos olhos ficam mais fundo depois disso.

E a gente sobrevive, ainda não sei bem como, mas a gente vive.

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Refrigerante sob a toalha de mesa

Já imaginou que o fato de você ser desastrado pode ser na verdade um super poder? Imagina se aquele copo cheio d’água caindo sob a toalha de mesa nova tivesse caído apenas pelo fato de que o conteúdo do copo lhe faria mal.

Seu desajeitamento perante o mundo na verdade fosse um sistema de defesa que te protege da má sorte. E você sempre achando que sua má sorte era ter a mão de manteiga. E se não fosse azar? E se de acordo com o efeito borboleta aquele vaso de violeta que se partia em mil pedaços tornou possível que o estudo da antimatéria fosse concluído e o salto tecnológico acaba-se com todas as guerras? Tudo por que você é desastrado.

Seria mágico não seria? Cada refrigerante virado na mesa construísse em você uma tolerância ao erro e torna-se você mais empático aos defeitos dos outros. Que moldasse em você a certeza de que o não acertar é tão valioso e necessário para o seu desenvolvimento e que as vezes pequenos erros evitam grandes decepções num futuro próximo.

E se tudo aquilo que sempre te magoou, aquela história que sempre doeu, aquele trauma que nunca passou, for um dos elementos que ajudou a estruturar o ser humano que você é hoje?

Acho que mais copos seriam derrubados, mais vasos seriam quebrados e o erro não seria assim, tão de mau grado.

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Sueli

Sueli era uma mãe de família. Casada com uma filha ainda pequena, Sueli vivia sua vida como todos nós, um dia após o outro. Seu ofício era próximo de casa e fazia natação, quando possível.

Trabalhava num escritório de design, era um ambiente moderno e caótico, um cabaret revisitado. A parede de tijolos ao fundo valorizava um grande neon rosa que dava profundidade aos objetivos e as pessoas presentes.

Um belo dia, indignada com a situação política do país, Sueli desabafou com seus colegas de trabalho sobre os entraves socioeconômicos que tanto a afligiam. Entre falas complexas, Sueli respira profundamente e diz:

O pior vocês não sabem, descobri que Otávio meu marido, pai de minha filha… Tem tendências de esquerda!

Enquanto solta o peso dos ombros, joga para trás do ombro esquerdo sua echarpe a fim de se proteger do golpe cômico do destino. Deposita a mão sobre o colo coberto e mais uma vez respira indignada.

Sueli era assim, uma mãe de família excepcional.

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Oceano

Foi sentado numa duna olhando o mar que eu entendi. Aquele sentimento que bate no peito toda a vez que meus olhos cruzam com a imensidão azul.

Gratidão, paz, acolhimento, pertencimento, etc. Entendo a fixação de Neruda pelo mar, seus joguetes de palavras, suas cadências em ondas, seu ritmo de remo em cada sentença.

Darwin presumiu que evoluímos, que num momento longínquo da história dividimos o mesmo útero com todos os outros seres, o oceano. Talvez seja por isso todos esses sentimentos que se resumem em clichês, esses momentos de inspiração, aquele conforto de dormir semi nu cercado de areia. Tamanha a segurança que sentimos diante dessa deusa com seu véu azul que estoura em conchas.

Mãe, rainha e criadora, obrigado pela vida que me deste e obrigado pelo dom de tecer palavras assim como aqueles pescadores que colhem em rede seus frutos.

Obrigado por dar-me o pão e a água.

Obrigado por me ensinar a fazer parte.

Obrigado por me deixar te amar.

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Memória

Brisa suave de verão, cerveja gelada, som de samba ao fundo, um pedaço do erre jota em Porto Alegre.

Sabe aqueles momentos em que sua mente te leva prum lugar tão bom que o sorriso se esboça involuntariamente no seu rosto?

Lembranças guardadas num lugar de carinho, aquela sensação boa de acolhimento e pertencimento. Momentâneo sim, mas não por isso menos real. Me faz feliz perceber que conforme o tempo passa mais vivências como essas se acumulam no lobo temporal medial. Você vai percebendo como a vida se construí através de uma jornada única que é de inteira responsabilidade sua. Vivendo e aprendendo. E lá vai outro sorriso arquear os lábios.

É engraçado assistir os efeitos do tempo em seu corpo enquanto você vai construindo essas lembranças. Os pelos embranquecendo, você envelhecendo e se encontrando de novo e de novo, sempre procurando você no presente e usando o passado como mapa pra saber onde teu coração aperta ou se enche e assim ter um palpite de qual caminho seguir.

Ainda falta muito pro sol se pôr, o samba ainda não acabou e a cerveja segue gelada. Acho que fiz mais uma memória.

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