Categoria: Crônica

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Um sábado qualquer…

Hoje acordei meio zonzo. Na verdade acho que ainda estava dormindo, meus olhos colados provocavam meu tato em busca do celular, o mundo gritava enquanto eu dormia, mas eu não acordava.
 
Tentando me encontrar no meio de tantas ocorrências uma janela se abre, minha visão se organiza em focos. Bom dia, dizia ela. Me chamava para tomar café em sua companhia. Eram sete da manhã de um sábado frio, mas ensolarado.
 
Vesti-me de forma a ficar bonito pra ela, era um jeito bobo e simples de presenteá-la pelo convite para o café matutino, caminhei pelas ruas vazias e molhadas pelo orvalho. Corpos destacavam-se e bamboleavam pelas calçadas do centro. Cachorros alvoroçados pulavam. Ela estava para no jardim, olhei pra ela xingando-a com um sorriso no rosto. Braços se entrelaçaram.
 
Comemos, tomamos, conversamos, rimos e enquanto tantos dormiam nossas vozes rasgavam o silêncio calma da manhã. A cidade despertava aos poucos, como se enrolasse na cama ainda tentando dormir. Nós rimos.
 
Numa das esquinas do centro nos despedimos, caminhei pelas ruas ainda molhadas pelo orvalho, organizei a casa, acendi um incenso e pela primeira vez a muito tempo me senti pleno de mim.
* Imagem por Leco Vilela.

O garoto que cansou de correr

Desde pequeno ele ouvia que era preciso correr atrás do dinheiro. Pobre garoto não só ouvia como também via a correria forte atrás desse tal dinheiro.

Cresceu vendo adultos brincando de empurra-empurra pra entrar no trem lotado, olhava querendo entender as regras desse jogo tão chato, pensava isso, pois todos pareciam irritados.

Os anos passavam e o tal garoto foi vendo os amigos planejando o futuro, alguns queriam brincar de médicos, outros construir prédios e ele não sabia ao certo o que queria, então por inércia seguia caminhando, descobrindo o mundo desbravando os pequenos sonhos que se punham em sua frente.

Já era um adolescente e a vida o forçava mais pela corrida do din-din, cinema, fliperama, namoro, comida, balada… Ele parava, olhava para tudo aquilo e parava.

Nunca fez muito sentido pra esse garoto ver tantos corredores de dinheiro com tanto medo de perder tudo que mal viam por onde andavam. Ele gostava de caminhar, de dançar, de ler e de sonhar, mas novamente por inércia correu, embora não pelo mesmo objetivo, mas correu.

Essa criança, adulto virou, e dessa vez parou de vez. Virou pro lado e deitou na grama, olhou pro céu e respirou fundo. Dormiu.

Quem ainda corria olhava e dizia mais um Zé Ninguém. Ele ali deitado sonhava, acordava, dormia, sonhava, virava, pensava, resmungava, pensava, sonhava…

Demorou seu tempo e então levantou, deu as costas pra pista e foi subindo a colina que muita gente temia, estava sem medo, sem dinheiro e sem dúvida ou dívida. Seguia, o garoto já adulto caminhou e nunca mais pra corrida voltou.

Há boatos de que ele continua um garoto que caminha, dança, lê e sonha. Enquanto os outros, pelo dinheiro ainda correm.

Eco

Ao acaso um convite, a ausência de uma voz e a necessidade de um tempo. Disse sim. O nervosismo antes do palco, o descontrole da bexiga, a respiração descompassada e meu nome soa no microfone.
Apresento-me desajeitado e tento na medida do possível conversar com todos ali sentados, como se tivesse entre amigos. Tantos olhares. Respiro fundo.
Primeiro o título, depois o parágrafo e assim se faz.  Nas risadas deles enxerguei um humor invisível pra mim. Achei graça em ter graça com frases simples.
Foram alguns minutos, rápidos minutos, que me estamparam um sorriso no rosto. Ainda guardo a sensação das minhas bochechas rubras.
Entre estranhos e conhecidos, li pela primeira vez meus mais secretos segredos. Compartilhei pedaços de mim, me ecoei.
Amor, Crônica, Vida

Miopia


Ficava parado olhando pela janela as pessoas passarem.

Via corpos nômades e buscava um traço comum aos meus olhos.

… Te esperava.

Tinha o hábito de insistir, não importa muito em que, mas sempre fui de insistir. Por isso, passei tanto tempo impondo meus desejos e lutando para faze-los realidade. 

Talvez tenha me acostumado a ser assim, insistindo em você.

Via em você algo que eu queria tatuado em mim.

Miopia é uma anormalidade que só permite ver os objetos a pequena distância do olho.

Acho que meu olho aprendeu a te ver por aqui.
Crônica, Poema, poesia, Vida

Poema

Eu tenho procurado a poesia em cada esquina e talvez esse seja meu erro trágico. Poesia não se encontra em cada centímetro de rua, essa demonstração de si através das palavras, não está somente em uma parede branca e lisa.

Existem concretos tortos que abrigam um número infinito de verbos bonitos para ser mostrado. Ainda há aquele muro escuro e isolado que entre seus tijolos guarda o ritmo leve e a cadência áspera de um bom poema.

É incrível a capacidade humana de enxergar sua própria poesia em pessoas inóspitas. A capacidade de se perceber projetor é um degrau a mais na escala do tempo, espero por isso agora.

Aguardo também pelo dia em que enfim encontrarei substantivos com gosto de mar, não meus, mas  sim aqueles que reverberam leve por cada poro de um corpo sem sexo.

Enquanto esse dia não chega, me contenho com os livros, o vento e a grama molhada.