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Mudança
| Pôr do Sol em Porto Alegre |
Não sei o motivo social ou antropológico dessa busca, talvez se assemelhe com o sentido da vida. A verdade é que nos bombardeiam com imagens e sons da felicidade ideal, nos ensinam que não somos como os outros animais porque pensamos, mas para mim nossa única vitória é termos a sorte de ter nascido com um polegar opositor.
Lembro que quando criança eu dizia ser um mutante, diferente de todos, oposto ao desejado. Esse sentimento de negação do próprio ser talvez seja a sensação menos compreendida por um adulto. Os grandes parecem não se lembrar de quando eram crianças e não queriam a própria história e sim outra qualquer.
Um humano adulto deveria poder reescrever sua própria história, mudar caso necessário ou desejado. É justamente este o “super poder” que toda criança secretamente deseja do adulto, poder mudar a própria realidade.
Mas fazer o que, se vivemos num mundo que abomina a dor? Que ao invés de aprender com esta força, simplesmente a ignora. Nem mesmo o mertiolate dói mais. Somos filhos de país carentes, filhos de uma nação desamparada, filhos do silêncio e do medo. Libertaram-nos das algemas, mas não nos disseram como andar.
Um elefante criado em cativeiro não precisa de cerca quando adulto.
Maria
Cartola
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| foto Isaias Mattos |
Presto atenção, mesmo sabendo que estou resolvido, pois em cada esquina é possível se perder. Talvez seja a forma desse mundo moinho me mostrar que sonhos só se transformam em realidade após muita luta, caso ao contrário essas ilusões são reduzidas a pó.
Só espero não deixar de crer no amor, pois com o tempo só se herda o cinismo, até que se percebe em um abismo, que cavastes com os próprios pés.
*Um tributo a Cartola.
Curvas
Anseio pela viagem e pelo desconhecido. Acho incrível a capacidade de algumas pessoas de saírem de suas casas com uma mochila, um bom sapato e muita coragem. Não vejo esse tipo de viajante em mim. Nunca foi de acampar ou de pegar caronas na estrada, mas isso não diminui o valor do caminho.
Muitos falam que a estrada é solitária, li isso em muitos livros também, mas a verdade é que a estrada recebe a todos que nela pisam. Claro que receber não é zelar, a estrada não pode se preocupar com o suor da sua testa ou o calo do seu pé. Nela você aprende mais sobre você, não só limites, mas também sentimentos e dor.
Nós passamos muito tempo fugindo da dor, nos dopamos na esperança que ela desapareça, mas no fim das contas, ela continua lá, a gente que vai aprendendo a ignorar. Dizem que isso faz de você alguém mais forte. Eu ainda acho que forte é quem encara a dor nos olhos, resolve as coisas e sai andando. Sei que isso pode ser mal interpretado e encarado como falta de educação, mas pense bem, educação de quem? Quem te ensinou a ignorar a dor?
A estrada não é feita de caminhos fáceis, talvez por isso ela me fascina tanto. Afinal nunca fui normal e sinceramente, nesse meu quarto de século, considero isso um elogio.
Qual o propósito da estrada? Ela é uma imagem densa, sem dúvida, um signo forte de liberdade, força e rompimento. É como a esfinge de Tebas, é necessário decifrar ou se deixar devorar.
A estrada não se trata de uma fuga, se trata de um adeus.

