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Nome da Coisa Posts

Sozinho

Derek Fernandes

A chave penetra na fechadura e gira. A sala mal iluminada com algumas roupas jogadas no sofá tem um cheiro de lugar seguro. Ninho. Ele joga sua bolsa no chão e tira a camisa enquanto anda pro quarto.

Amanhã é dia de lavar a roupa, acusa o balde de roupas sujas. Ele chuta os tênis velhos para debaixo da cama e faz cestas com o par de meias, abre o zíper e a calça escorrega silenciosamente sem se importar com os pêlos da perna. Vai até o rádio e aperta o PLAY. Ele arranca a cueca e caminha pelado para o banheiro, o barulho da urina no vaso o diverte.

Liga o chuveiro e ergue a cabeça para que as primeiras gotas caiam sobre sua testa, ele gosta de sentir as gotas passeando por todo seu corpo. Ele encosta a testa no azulejo frio e deixa a água livre fluir. O sabonete se dissolve em pequenas bolhas limpando sua pele suada, retirando dele seu cheiro de homem usado.
Ele deixa a toalha secar seu corpo enquanto o vento frio lhe arrepia a pele. Cai nu na cama e se deixa adormecer enquanto a música toca.
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CRASH

Ensaio – Foto por Carolina Loureiro de Brito
Eram quase cinco da manhã e aos poucos o azul do céu clareava. 60 Km/h. Minha mente vazia e embriagada corria. 90 Km/h. O choro veio como que por inércia, apareceu sem ser notado ou até mesmo convidado.
Meu corpo estava a 150 Km/h. Meu pé pesava contra o pedal. Era o silêncio seguido por uma chuva fina de cacos de vidro.
E como uma bailarina, o carro rodopiava, dando um salto para o seu cavalheiro. Foram três rodopios capotados. O cinto abraçava minha cintura larga. O choro seco me atormentava, tive medo de respirar. No final da dança eu estava inteiro, intacto, ileso…
O que me deixa mais feliz é saber que na hora em que morremos é tudo tão rápido que mal sentimos.

*Dedicado a Felipe Paludetti e Vicente Júnior

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Ontem


Caminho pelo asfalto úmido de uma São Paulo submersa, a luz amarelada do poste faz contraste com as ondas que as gotas que caem dos fios, provocam em uma poça.

Do meu lado direito a igreja escura de janelas claras e vitrais coloridos se mostra imponente. A estética de uma cultura banhada no fogo.

O vento gelado corta meu rosto e infla em balão a toca do meu casaco. Só sei dançar com você, isso é o que o amor faz. Meu fone enterrado nos tímpanos.

Jeans rasgado, e agora molhado, aperta a minha pele. Caminho com passos largos e explodo poças quando possível. Noite fria de inverno.
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Medeixa

Mouvement I (Kandinsky)
Deixa-me contemplar o mar sem presa de voltar pra casa
Deixa-me sentir as ondas quebrando em meu peito
Deixa-me sentir a brasa me aquecer em vida
Quero este estado de pensamento e corpo livre
Sentir o pé afundar na areia como a mão de uma francesa que afunda num saco de feijão
Quero o cheiro de tempero do mercadão
Sentir na língua o gosto da sua pele morena salpicada com páprica picante
Deixa-me fundir os meus sentidos e viver assim como Epicuro quis
Deixa-me ver a lua brilhar solteira no céu azul
Deixa-me brincar de ser feliz
Como cada gota de orvalho que chegando ao chão se explode em euforia. Pequenos fogos de artifício.
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Cega

E sem poder ver as horas, ela as tocou. Seus dedos acariciavam os ponteiros do relógio em seu pulso.
Era nove e vinte da manhã e o dia mal tinha começado. Ela caminhava com sua bengala tocando suavemente o chão.  Sonar de um morcego tão negro quanto seus cabelos.
Seu olhar branco mirava o nada, imenso vazio sem cor. E, no entanto, era como se enxergasse o mundo, janelas da alma aberta.
Cegueira branca é de quem vê e não encara o mundo olhos nos olhos.
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