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Nome da Coisa Posts

Cega

E sem poder ver as horas, ela as tocou. Seus dedos acariciavam os ponteiros do relógio em seu pulso.
Era nove e vinte da manhã e o dia mal tinha começado. Ela caminhava com sua bengala tocando suavemente o chão.  Sonar de um morcego tão negro quanto seus cabelos.
Seu olhar branco mirava o nada, imenso vazio sem cor. E, no entanto, era como se enxergasse o mundo, janelas da alma aberta.
Cegueira branca é de quem vê e não encara o mundo olhos nos olhos.
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Malas

Lembra-se do fone de ouvido preso na vitrola que gritava as melodias do passado e os riscos dos discos? Lembra-se da fanta que coloria a língua e da tubaína na garrafa de cerveja?
Você pensa no laço que eu te dei? Do beijo atravessado entre os olhares lascivos? Da madrugada perdida abraçados no carro? Lembra-se de eu te pedir aquela música? Ou talvez de quando te vi risonho naqueles bares da augusta?
Lembra pelo menos de quando te despi sem pressa na bagunça do meu quarto?
É duro te ver partir sem levar as malas e memórias.
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Oração

Ave, mesmo que não seja Maria, cheia de bondosa graça
Somos por vós.
Benditas sóis vós, assim como a todas as outras mulheres,
Bendito é o fruto que é de seu direito ter no ventre ou não.
Santa ou Puta Maria,
Mãe, mulher e menina.
Olhai por vós, as peregrinas,
Que se permita ao gozo eterno,
A livre barriga,
A denúncia
E a vida.
Amém!                   
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Faces da Liberdade

Foto de Marcelo Souza Almeida
 
Tenho ouvido batalhas, protestos, conflitos e gritos. Tenho visto o povo gritando e se agitando. Percebo a fúria de uma população que se acostumou ao silêncio. Uma panela de pressão pronta para espalhar feijão no teto.
Penso nos motivos e nos discursos, não se trata de liberdades coletivas, mas de liberdades individuais. O povo se agita e grita, pois cansou de negar a si em prol de um coletivo nuclear, que é atribuído de um sentido mágico de segurança.
Nas ruas eles clamam pela liberdade do próprio corpo, de se mostrarem como são por dentro, pela própria libido que lhes foi comprada. Pessoas morrem em nome de suas próprias vontades que são oprimidas por um aparato social precário e antiquado.
Direito ao útero, ao sexo, ao gênero, ao livre pensamento, ao amor livre. Apelos simples de almas que não querem ser regidas pelos pecados de outros.
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Quase carioca

Desenho de Luiz Porta

O ar comprimido pela maresia alta da maravilhosa cidade lhe causa vertigens.

Tinha os cabelos enrolados como ninho de pássaros, enquanto que seus olhos verdes se pareciam com o mar que se permite abraçar pela Baia de Guanabara.

Uma noite no Leme e outra na Lapa, seus lábios finos e ligeiros a narrar histórias. Era uma pele morena que mesmo estrangeira combinava com a atmosfera carioca.

Era em um bar da Lapa que estávamos escondidos entre Seixas e outros tantos Rauls. Nós bebemos a uma noite finita, sem necessidade de findar-se.
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