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Nome da Coisa Posts

Era uma casa muito engraçada


 
São fantasmas que vagam por entre minhas paredes, eu renovada, mas antiga. Muito já se passou em mim, mas hoje vivem os espectros que são visíveis pelas frestas das portas.

Imprudências, assédios, tristezas e angústias. Alegrias também aconteceram aqui, mas depois de um tempo os tijolos pesam tanto que eu sedimento. São demônios incrustados entre as camadas de tinta que me renovaram.

Existem vazamentos e lutas homéricas contra as pragas. Sou um edifício aberto, com uma luz agradável e uma brisa leve, mas os anos me consomem e embora permaneça estética minha origem se esconde entre constantes reformas.

Ouço fantasmas, seus passos e seus gemidos. Seres que transam estupidamente entre minhas paredes e ignoram minha sólida existência. Beijos trocados com outro por aqueles que usavam meus espelhos para aprender o toque dos lábios.

Às vezes avarandar, outras vezes demolir.
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Coisas

Foto André Medeiros Martins
Existem coisas que me dão uma noção vaga de sentido na vida.

O sabor que toma a boca, o suco da fruta que escorre pelo queixo, o cheiro do seu corpo nos meus dedos, o sol que entra pela janela de manhã, as estrelas pintadas no céu, a chuva que avisa antes de cair e a brisa que me toca quando menos espero.

São coisas singelas, eu sei, mas são coisas, minhas coisas, coisas que me fazem bem.

Como acordar no meio da noite e perceber que, mesmo separados, você encontrou um jeito de quedar-se entre meus braços sem me despertar.

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Presente


Sento agora no alto de um edifício de três andares. Atrás de mim a lua se faz crescente.  Encanta-me o anoitecer dessa cidade.  O sol parece gostar muito daqui durante o verão, ele só cai na margem do mundo lá pelas oito e meia da noite. Noite que aqui ainda é dia, engraçado, não? 
A cidade aqui é quieta, ainda mais se comparada à selva de pedra. Existe barulho, claro, mas a ausência daquele som distante, som de gente correndo, essa ausência faz a cabeça ficar mais leve.
Venta agora e o escuro vai tomando conta. Tem um cheiro de páprica doce bem forte, deve vir do bar que fica no primeiro andar desse edifício. Aqui do alto é possível ver as tevês ligadas no jornal nacional. Uma senhora se empenha em olhar pela janela e no outro prédio um homem permanece parado em frente a uma planta. O que ele faz?
Escureceu mais e parece que o vento gostou disso, pois ele passa mais forte por entre meus braços. Risadas de bar podem ser ouvidas. Tem uma árvore que parece dançar com o vento e de repente uma andorinha passa por mim num rasante. Espanto-me e sorrio. A minha direita tem um casal na varanda, não consigo ver mais do que as silhuetas, mas acredito ser um casal mais velho. Conversam. 
O homem ainda está encarando a planta. E no meio de tudo isso, entre outro rasante e as estrelas que brotam do céu, eu estou feliz.
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Mudança

Pôr do Sol em Porto Alegre
De uma forma ou de outra sempre buscamos a normalidade, o equilíbrio. Não uso o normal como antítese de diferente; entendo que mesmo nas diferenças existe o padrão de normalidade desejada, mas penso em como essa busca utópica nos afeta.

Não sei o motivo social ou antropológico dessa busca, talvez se assemelhe com o sentido da vida. A verdade é que nos bombardeiam com imagens e sons da felicidade ideal, nos ensinam que não somos como os outros animais porque pensamos, mas para mim nossa única vitória é termos a sorte de ter nascido com um polegar opositor.

Lembro que quando criança eu dizia ser um mutante, diferente de todos, oposto ao desejado. Esse sentimento de negação do próprio ser talvez seja a sensação menos compreendida por um adulto. Os grandes parecem não se lembrar de quando eram crianças e não queriam a própria história e sim outra qualquer.

Um humano adulto deveria poder reescrever sua própria história, mudar caso necessário ou desejado. É justamente este o “super poder” que toda criança secretamente deseja do adulto, poder mudar a própria realidade.

Mas fazer o que, se vivemos num mundo que abomina a dor? Que ao invés de aprender com esta força, simplesmente a ignora. Nem mesmo o mertiolate dói mais. Somos filhos de país carentes, filhos de uma nação desamparada, filhos do silêncio e do medo. Libertaram-nos das algemas, mas não nos disseram como andar.

Um elefante criado em cativeiro não precisa de cerca quando adulto.

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Maria

Maria tinha seus vinte e tantos anos, ela era esperta, descolada e andava livre pela rua. Seus óculos escuros lhe davam um ar descompromissada, quase que coloquial. Caminhava pela feira de artesanato em um domingo ensolarado.
Seu corpo com algumas tatuagens, vestia um shorts curto ao melhor estilo, foda-se você. Maria procurava algo entre as barracas, queria um presente, mas não tinha muito dinheiro para comprar, gastará boa parte com álcool e comida.
Ela era fotografa e tinha os olhos acostumados a uma beleza grega, púbere, embora o que gostasse mesmo era um corpo marcado, colorido e confortável. Queria o diferente e com isso era indiferente às investidas de seus ou suas modelos.  Maria era bonita em seu jeito, charmosa e um pouco tímida para começar uma conversa, mas se soltava fácil, isso era verdade.
Outra coisa importante a se dizer sobre Maria é que ela era virgem não praticante e, além disso, acreditava em sexo no primeiro encontro. Afinal gozar a vida era preciso e algumas pessoas simplesmente não voltam.
Mas voltando a feira de artesanato, lá estava Maria, caminhando quando viu um ciclista pedalando em sua direção. Estranhou e pensou se de fato era na direção dela que o ciclista corria, sim era. Teve medo de ser atropela, mas no mesmo momento viu quem pedalava, era um homem lindo, seu tipo, seu número.
O ciclista se aproximava em zoom e a cada quadro Maria o desejava mais, penso em sair da frente para não ser atropelada, mas sua única reação foi abrir as pernas. Ele freou ali, com as rodas entre suas pernas e a cabeça inclinada para a sua boca, ele sorrio.
Maria, a esperta e a descolada que andava livre pela rua, pensou que talvez fosse uma boa hora para tirar o Santo Antônio do copo d’água.
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