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Nome da Coisa Posts

De repente 23!

Recado que minha mãe deixou hoje na parede da sala.

De repente acordo e as figuras na parede a brincar de hieróglifos me fazem perceber a idade que chega. Hoje são 23 verões, 23 verões de existência, 23 verões de fortes batalhas vencidas e perdidas… 23 anos.

Parece engraçado dizer isso, afinal eu era um recém nascido, mas eu lembro da música de tocava enquanto eu nascia. Não me lembro dessa maneira ocidental de reviver a situação mentalmente. Eu lembro dela pelos meus poros e meus tímpanos, lembro dela com cada parte do meu corpo. E eu sei que lembro mesmo de forma tão abstrata, pois meu corpo vaza e transborda em emoção toda a vez que eu escuto a voz de John Lennon pedindo por um mundo melhor.

Para quem me conhece sabe ou consegue perceber que de fato nasci ao som dessa música, dessa canção que não só marca a minha personalidade, como marca minha trajetória, vida de marcas. E eu sei que vocês podem dizer que eu sou um sonhador, mas eu não sou o único. Eu tenho a esperança de que um dia vocês se juntarão a nós, os sonhadores. E o mundo, o mundo será como um só.

Por que imaginar um mundo melhor não basta mais, é necessário fazer seu mundo melhor a cada dia e perceber que ao menos na imaginação não existe posse.

Hoje comemoro o meu ano novo pessoal, a minha virada, o meu ano um. Hoje renasço e me permito ser e imaginar tudo aquilo que quero e posso.

Namastê.

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Vida Imaginária *

Xavier Dolan
Havia chegado à França naquele mesmo dia, deixei as malas na república que logo se tornaria meu lar. Após a socialização com os outros moradores resolvi dar uma volta pela cidade. Era outono em Paris, o vento soprava forte, fazendo com que as flautas doces na mão das crianças parecessem tocar sozinhas.
Andava sem pretensão alguma, andava valorizando o sonho tão desejado que se tornara realidade. Após quase uma hora e meia de caminhada com o vento cortante batendo no rosto, resolvi parar naquele charmoso café na Rue St Honoré. Sentei-me sozinho, pedi um Tarte Tartin e um expresso gourmet. Degustava-me com a sensação de liberdade que nunca foi minha. Respirava aquele aroma com um sorriso leve de criança a me tomar os lábios. Olhei para lado.
No fundo do café uma mesa agitada, aquela língua rápida e afiada que eu pouco conhecia. Definitivamente eu estava na Europa, o falar agitado com as mãos, as gargalhadas sonoras, os goles de café e o cigarro a descansar no cinzeiro. Tomei coragem, a coragem de um viajante sem passado e sem futuro. Fui até a mesa. Todos ali pareciam ter a minha idade e perceberam a minha chegada, não demorou muito e aquela levantada de cabeça revelará um rosto familiar.
Demorei a me lembrar de onde conhecia aqueles olhos, aqueles lábios, a curva daquele pescoço. De repente como num baque surdo me percebo na frente de Xavier Dolan e seus amigos. Fico ligeiramente sem palavras. Acabo por emitir um sonoro “Sorry!”. Ele sorri do meu jeito desajeitado e eu sem perceber sorriu, respondendo aquele gesto. Disse que o conhecia que adorava seu cinema e seu jeito de ver as coisas. Compartilhava de algumas fotografias que ele valoriza em seus trabalhos. Ele sorriu novamente e o “merci” tomou conta de meus ouvidos. Disse até logo e voltei ao meu lugar, tomei um gole tão grande de café que senti meu tórax queimando por dentro. Enquanto disfarça a dor que o café quente me proporcionará senti um leve toque no meu braço. Era ele. Sorrindo novamente, me informou de uma festa que fariam mais tarde, me passou o endereço e anotou meu telefone. Fiquei sem jeito, pois não conhecia ninguém, ele colocou a mão nas minhas costas me deu um beijo em cada bochecha e disse ao pé do meu ouvido “vous me connaissez”.

Naquela noite, perdido em meu primeiro dia em Paris, me vesti com meu jeito brasileiro de ser e fui a tal festa. 

* O título “Vida Imaginária” faz referência aos devaneios internéticos de René Piazentin e ao filme “Amores Imaginários” de Xavier Dolan.

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São Paulo

Foto por Leco Vilela

 
Existe alguma coisa em São Paulo que me expõe de uma forma suave, mostra minha história e cada história de sua longa vida.

Existe algo nesse ar, nesse vento. Talvez seja o dióxido de carbono misturado com o ozônio do fim da tarde, ou talvez seja só a minha pele que o vento toca diferente.

Imagina que cada janela acesa durante a noite tem sua história, seu conto, sua crônica. Eu imagino, e nesse exato momento uma mulher está fumando um cigarro, repousada na janela de um apartamento no centro.

São Paulo é terra de santo, mas com seu inferno particular, talvez seja essa a dicotomia que me agrade tanto, ou talvez seja só o vento que a minha pele insiste em sentir diferente.

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Uma carta para o céu

Foto por Leco Vilela

Olhar pela janela se tornou um hábito engraçado para mim. É que o céu ultimamente tem brincado de aquarela, pena que São Paulo é um potinho impermeável e não aceita a água que escorre do pincel. Uma ou duas pinceladas e pronto o pote já está cheio d’água.

Ah que bom seria se junto com essa água toda viesse um patinho de borracha, e que a água fosse limpa ao ponto de eu abrir a boca pro céu e me colorir por dentro, mas sabe como é que é né! Água com muita tinta, mistura e fica cinza.

E em quanto o céu brinca de se pintar em nuvens, as pessoas aqui embaixo brincam de chover pelos olhos, pois sem querer o céu jogou o potinho cheio d’água com tudo dentro pelo ralo.

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Canibalismo

Respiro, em tempos sem umidade essa é uma tarefa difícil. Abro a janela em busca de ar, o vento bate suave e frio no meu rosto. A noite parece fria, mas mesmo assim meu corpo sua.
Em gotas sinto o calor descer a espinha dorsal do meu corpo, provocando um arrepio estranho. É nessa hora que o mocinho deve acender seu cigarro?… A cena pede isso.
Confuso deixo a janela aberta e vago com meu corpo nú pela casa, olho dentro da geladeira e não encontro nada que me encante, que alimente essa necessidade de algo sem cor e sem nome. Talvez, mas só talvez eu não queira nada. Talvez, mas só talvez eu queira eu. Eu queira vivificar meus sonhos e anseios.
Falta-me coragem e o suor continua a me correr nas costas, aumentando a minha necessidade de mim mesmo, quero comer-me.
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