Categoria: Atualidade

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O garoto que cansou de correr

Desde pequeno ele ouvia que era preciso correr atrás do dinheiro. Pobre garoto não só ouvia como também via a correria forte atrás desse tal dinheiro.

Cresceu vendo adultos brincando de empurra-empurra pra entrar no trem lotado, olhava querendo entender as regras desse jogo tão chato, pensava isso, pois todos pareciam irritados.

Os anos passavam e o tal garoto foi vendo os amigos planejando o futuro, alguns queriam brincar de médicos, outros construir prédios e ele não sabia ao certo o que queria, então por inércia seguia caminhando, descobrindo o mundo desbravando os pequenos sonhos que se punham em sua frente.

Já era um adolescente e a vida o forçava mais pela corrida do din-din, cinema, fliperama, namoro, comida, balada… Ele parava, olhava para tudo aquilo e parava.

Nunca fez muito sentido pra esse garoto ver tantos corredores de dinheiro com tanto medo de perder tudo que mal viam por onde andavam. Ele gostava de caminhar, de dançar, de ler e de sonhar, mas novamente por inércia correu, embora não pelo mesmo objetivo, mas correu.

Essa criança, adulto virou, e dessa vez parou de vez. Virou pro lado e deitou na grama, olhou pro céu e respirou fundo. Dormiu.

Quem ainda corria olhava e dizia mais um Zé Ninguém. Ele ali deitado sonhava, acordava, dormia, sonhava, virava, pensava, resmungava, pensava, sonhava…

Demorou seu tempo e então levantou, deu as costas pra pista e foi subindo a colina que muita gente temia, estava sem medo, sem dinheiro e sem dúvida ou dívida. Seguia, o garoto já adulto caminhou e nunca mais pra corrida voltou.

Há boatos de que ele continua um garoto que caminha, dança, lê e sonha. Enquanto os outros, pelo dinheiro ainda correm.

Compulsões

Essa via de eternas luzes acesas que sangra o planalto da selva cinza, esconde seus segredos em formas anacrônicas.

Nem mesmo os frondosos arranha-céus serviram para que o macaco bípede alcançasse o céu e seus sonhos. Vejo sonhos transformados em hobbies, vejo dinheiro descendo pelo ralo e ainda tento entender a dança de king kong’s pelos prédios de São Paulo.

Bailarinos executivos e pintores contadores compõem a estranha fauna que aflora na cidade do asfalto. Chega a beirar o surrealismo as imagens que se produzem na sombra dos Homos Operarius. Formigas de terno e gravata enfeitam suas paredes com falsos Picassos e eternas rachaduras insolúveis. Basta-me ver o camaleão que se força a encaixar suas cores a palheta monocromática da sociedade “civilizada”.

Lampadas não iluminam mais, agora servem de sabres de luzes que matam inocentes. Estupro, morte, latrocínio, furto, homicídio; relatos sangrios direto D’antena que invadem os olhos cortados da infância.

Corações batem desesperados numa dança de acasalamento bizarra conduzida unicamente pelo prazer individual excluindo o respeito sagrado do corpo. Leões morrem sozinhos.

Caos e ovos mexidos. E as luzes do planalto da selva cinza ainda brilham a sangrar meus olhos.

Uma linda mulher

Seus olhos claros e límpidos a destacavam na turva realidade do dia-a-dia. Ela costumava sorrir a quem lhe cruzasse o caminho, de alguma forma sentia que ajudava quando fazia isso.
Não estava de toda errada, afinal ao ver o quadro perfeito que envolve seu sorriso e acentua seu olhar singular homens e mulheres pareciam receber o toque de um anjo.
Ela era assim, amável, carinhosa, e por que não angelical? Mas assim como Terezinha, não demorou muito e foi ao chão, de anjo passou a demônio, de menina do vestido branco virou Geni. Aqueles olhos que antes lhe agradeciam sorrindo hoje a repudiavam em carrancas.
E a origem desse ódio desmedido e dessa raiva inconsciente era uma simples vírgula que ocupava o lugar do traço. Ela não havia mudado e mesmo assim ouvia em coro termos xulos ao passar na rua, eles é que haviam mudado.
Nada mais de sorrisos e nada mais de olhares, somente uma ira ancestral que culminou na morte por apedrejamento da bela moça, aquela que morreu por conta de uma vírgula, de um simples erro gramatical.

Sinto…

Foto: Leco Vilela / Edição: Camila Stella
Sinto falta de um país singelo, sem medo e com zelo pela alma alheia. Sinto falta dos bons tempos de menino, onde o pique era um poste e não blindagem para te proteger dos inimigos.
Sinto falta de acordar ao som de pássaros no pé da minha janela, sinto falta de sentir a respiração do vento, de ouvir a árvore falar. Sinto falta das sutilezas, dos detalhes, do tempo.
Saudosismo que não é só meu, que vejo em vários cantos e ouço em outros cantos. Esse jeito de viver a vida assim calado, amado, mesmo que por si, é um jeito nostálgico de querer de volta a vida que me foi roubada, é do sútil que tenho falta.
Daquele sorriso faltando um dente de leite, do cheiro de bolo a gritar no forno, sinto falta não da minha juventude, nem dos meus tempos de menino, sinto falta é das crianças que enxergam vilas em caixas de sapato.
Parece que de um jeito torto o mundo perdeu o posto, perdeu respeito, perdeu amor. Parece que no fundo do mundo só a lava e não outro mundo, como há tempos atrás se dizia. Parece que tudo perdeu a magia. E aquele menino mirrado, que mesmo apanhando continuava a conversar com a sua árvore, ficou esquecido e empoeirado nas estantes do tempo.
Sinto. Por isso escrevo este manifesto de peito aberto, pela retomada do simples afeto, pela volta de algo simplesmente belo, por algo simples e não complexo.
Foto: Leco Vilela / Edição: Camila Stella

Gritei, cantei e pulei; mas eu fiz a minha Revolução

Foto tirada por Marcelo Sá, na Marcha Contra Homofobia que rolou nesse sabádo (19/02) na Avenida Paulista.
Fizemos o caminho oposto da tradicional Parada do Orgulho Gay. Saímos da Praça do Ciclista, na consolação, rumo ao número 777 da Paulista, próximo a brigadeiro. Esse endereço foi escolhido devido aos dois ataques que se tornaram notícias nas mídias nacionais.

Protestamos de um jeito leve, bem humorado e acima de tudo politizado. Não éramos gays, lésbicas, travestis, transsex, bissexuais, héteros, etc. Eramos cidadãos em busca dos nossos direitos.

O que fica? O sentimento de que enquanto não mudar, enquanto não parar, enquanto não chegar ao fim; esse preconceito, essa homofobia. Nós vamos pra rua, por que como diz o grito da manifestação “Você ai parado também é violentado!”