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Categoria: Crônica

A Minhoca de Metal

por Leco Vilela
Dentro da minhoca de metal você vê a vida passar e nem se percebe ao mexer, nessa rotina aturdida de todos os dias, nem ouve o som do tilintar dos trilhos.

Sentado diante da janela dos olhos da minhoca, você vê a paisagem se distorcer num ZOOM. As imagens se formam e se dilatam enquanto os olhos piscam. A velocidade nunca cessa.

E nesse ritmo a cada manhã a minhoca come para depois regurgitar cada um de nós, aqueles que não deixam a cidade parar.
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Uma carta para o céu

Foto por Leco Vilela

Olhar pela janela se tornou um hábito engraçado para mim. É que o céu ultimamente tem brincado de aquarela, pena que São Paulo é um potinho impermeável e não aceita a água que escorre do pincel. Uma ou duas pinceladas e pronto o pote já está cheio d’água.

Ah que bom seria se junto com essa água toda viesse um patinho de borracha, e que a água fosse limpa ao ponto de eu abrir a boca pro céu e me colorir por dentro, mas sabe como é que é né! Água com muita tinta, mistura e fica cinza.

E em quanto o céu brinca de se pintar em nuvens, as pessoas aqui embaixo brincam de chover pelos olhos, pois sem querer o céu jogou o potinho cheio d’água com tudo dentro pelo ralo.

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O Discodante

O post de hoje será dedicado ao Dia Mundial de Combate a AIDS
 
“Homem, mulher, gay, lésbica, hetero, bi e travesti, não importam as siglas. Ela não escolhe barraco ou residência, cor ou tendência e quem dirá credo ou prepotência.

Imprudência não é amar, imprudência é negar a existência. A sua existência. O caminho mais rápido para um fim é assumir o silêncio que cada célula do seu corpo grita. Imprudência não pode ser amar.

Nesse conto de fadas moderno o vilão é interno e imortal. A espada mágica não existe e Merlin se perdeu no tempo. O que fazer com os devaneios de uma vida? Nossa queda é eminente, a diferença é que nesse grande tabuleiro sua rainha está em cheque.

O dia segue e a noite chega. Veste sua armadura pra poder amar sem medo. Sem receio do veneno que escorre do teu corpo. Desarmado não temo o beijo. Ser discordante nesse caso é opção. Confiança de que meu corpo para você continue imaculado. Nossa troca de sentimentos não envolve seus fluídos, as partes eternas que não se unirão sobre o abraço vigiado dela. Ela existe, assim como a fruta mordida do seu passado. Sua saliva ácida queima minha pele e mesmo assim te quero. Bomba relógio. BOOM
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Uma boa história

Ele põe seus óculos com aro preto. Senta-se na frente do computador e começa o ritmado jogo de teclas. Ele pensa, estrala os dedos e rói a pele envolta deles.

A idéia precede o ato de escrever, é necessário uma idéia fixa, um ponto de interrogação, uma ponta interna que às vezes chega até a doer; então como quem não quer nada põe-se a escrever. Expressa-se.

Às vezes quem ajuda o ato é o silêncio, outras vezes a música se faz necessária. Cria-se um clima. Imaginem:

“gêmeos de alma correrem pelo pasto verde com o sol a fazer sombra em seus corpos ascendentes”.


E pronto você já tem um inicio, uma idéia, uma hipótese.

Agora é necessário chegar até o fim dela. Sem um final a história lhe incomoda por dias, ela pede para ser terminada, ela clama por uma conclusão plausível, veja bem PLAUSIVEL, não boa ou ruim, mas plausível. Uma história não é dicotômica, ela não briga entre o bem e o mau enquanto é escrita, ela simplesmente é o que os dedos fazem dela.

Algumas histórias surgem de cadernos com as canetas de pontas finas. As canetas de pontas finas são as minhas favoritas. Elas parecem correr pelo papel e às vezes escrever coisas que nem nos demos conta que pensamos, muitas vezes são mais rápidas que os dedos.

Enfim, ele põe seu óculos ao lado, esfrega os olhos, respira fundo e revisa o texto, uma, duas, três… Quantas vezes o texto lhe pedir. Corrige, arruma, tenta limpar as imperfeições e manter o coração pulsante do próprio texto, que é independente da sua vontade. Depois de escrito, o texto já não é mais dele. Depois de tudo isso feito, de toda essa história, pode-se ter a chance de ter uma boa “história” para contar.
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O Doce Cheiro da Chuva

Existem muitas coisas que me fazem feliz no mundo, talvez a maior delas seja quando chove e logo após o sol se faz presente. E então o mundo num simples ato, colore-se.
Existe uma sinfonia própria aos meus ouvidos tamanha é demonstração de vida e de ‘recriação’. Eu sinto essa mudança em cada centimetro do meu corpo feito de carne e osso. É como se enfim eu fizesse parte de algo, da vida, do planeta. Me sinto conectado de um jeito simples. Sinto quando a terra chama a chuva em murmúrio lento. Ouço as cores que tomam conta do planeta após a chuva. Sinto o gosto de cada gota que cai sob na minha pele.
Esse jeito simbólico de ver o mundo me conserva momentos fiéis ao ver a chuva cair. Essa simplicidade que atua sobre a vida me torna por um momento Alberto Caeiro. Como que sem querer me permito brincar de heterônimos de outra Pessoa. 

*foto – Leco Vilela

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