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Lugar de Fala

Como posso eu abrir minha boca pra contar as mazelas do mundo quando o mundo tem sido tão bom comigo?

Tô vivo, diferente de Marielle.
Não sou negro e nem mulher, como Djamila.
Sou um pessoa com um corpo cis tradicional, diferente de Leandra.

Então o que eu posso escrever de tão relevante assim?
Por que minha voz merece ser ouvida mais do que as pessoas que realmente precisam ser compreendidas?
Que voz é essa e o que ela quer dizer?

A única coisa que eu sei
é que eu preciso que minhas letras possam ir além da mediocridade.

Como garantir que minha vivência construa narrativas complexas, epopeias sólidas?
Sou apenas mais um rapaz indo-afro-latino americano.
E apresento em mim toda complexidade dessa mistura de ancestralidade.
Quando rezo é torre de babel
É arcanjo conversando com orixá
É caboclo ensinando cavalo a rodar.
Qual métrica poética utilizar?
Qual cadência seguir? Qual ritmo dar?

Como discorrer na folha branca o que trava minha garganta?
Apertada e áspera,
ácido dissolvendo a pouca noção de gramática que me resta.

Já tentei espalhar palavras de amor e gratidão na esperança de ver fertilizar a consciência no terreno quase infértil que se mostra a humanidade desde a nossa criação.

Mas ainda assim não achei o tom.

Percebe, eu achar que o mundo foi bom comigo mesmo tendo quase morrido,
sido agredido
pulado córrego ao invés de corda.
Mas ainda assim entender o meu lugar na hora de falar
E ter que ouvir você dizer que não sabe certo como se comportar na presença de um corpo que é diferente do seu, que te causa estranheza.

O que me causa estranheza
é fome e pobreza
num país que o que mais é chão
Terra batida ou não.

Evoluímos, sem dúvida,
Mas ainda estamos nos atropelando na hora de falar
quando o que mais precisamos fazer é escutar.

Escutar Marielle
Escutar Djamila
Escutar Leandra

É só escutar!

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Terceira Lei de Newton e a Insignificância da vida humana

Que estranho é admitir a insignificância da nossa vida,
A existência mas marcante manter-se viva por menos de um século.
Lutamos para ser lembrados, pois a memória essa sim durável
Te permite esticar suas verdades para alguns milênios,
mas ainda assim sua existência finita já encontrou seu fim.

Carregamos tanto peso ao pensar em nossas vidas.
Traumas que tiram nosso fôlego.
Crises existências que tiram nosso sono.
Pra no final sermos apenas.
Animais autocentrados, irmãos brigados.

Ilusão achar que seus problemas tem o tamanho de uma explosão solar
Mentira achar que seus problemas tem o tamanho de um átomo
A gente é bicho estranho que atribui um tamanho aleatório
para todo obstáculo que aparece em nosso caminho,
Quando na verdade é isso, 
Somos nós mesmos que dizemos 
qual é o peso que vamos colocar nas costas

A vida não tem remédio
Por que não está doente
Ela não é torta
Por que nunca foi reta
Essa são as características desse breve espaço de tempo que estamos compartilhando
Não existe ninguém capaz de andar pela linha do seu destino
Linhas se cruzam para 
ensinar pontos contados de renda
Não é tesoura cega que seiva uma vida por insegurança boba

Caminha leva meu filho, pois
suas costas só doem porque você diz qual peso carregar
seus pés só doem porque você decide qual caminho tomar
sua vista só turva porque você decide pra onde olhar

Caminha leve meu filho, pois a vida é isso mesmo,
Um junta tudo ao mesmo tempo agora
Sem sentido e sem pressa de ir embora

Você só decide o próximo passo,
Fica esperto na terceira lei de Newton
e decide o próximo.

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Melodia

Me sinto tão quebrado que as vezes parado na brisa suave da grama que queima estalando bolhas de seiva explodindo no céu da minha boca enquanto nossos corpos se apertam, eu sinto um pedaço sendo colado no monte de cacos que a vida me deixou.

Sei que parece trágico e um tanto canceriano para um aquariano nato, mas é que meu vênus é em peixes e as vezes pequenos gestos já me deixando úmido, babando no céu da sua boca…

Quando eu tô contigo eu percebo como é lindo, nossas piscinas de energia se chocando em gravidade zero, explodindo silenciosamente e se espalhando lentamente, como naqueles filmes nostálgicos que falam sobre o espaço. 

Prosa é coisa rara, assim como essa tara que seu corpo teima em se esfregar com o meu. Beijo estalado, lábio molhado, você sorrindo de quatro.

Ah! Eu precisava correr pra escrever essa melodia enquanto meu rosto vazia covinha lembrando que seu corpo ainda está quente junto ao meu. Você me olhando sabendo que bateu, sabendo que eu só tô botando pra fora as coisas que geralmente tranco pra mim, sabendo que vai passar e eu sorrindo vou te olhar agradecido e fazendo o pedido pra isso que a gente tem ser vela de sete dias ou aquelas cumpridas que demoram vários dias, anos, décadas pra queimar. Pedir que nosso pé ficar sempre juntinho de baixo do edredom.

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Os conselhos de Caio

Caio era um homem de seus 35 anos, cabelos castanhos, mas com fios nitidamente ruivos, o que pontuava o grisalho chegando. Sem barba e com leves olheiras, Caio tinha um corpo comum.

Caio sempre foi o mais quieto dos seus primos, não que desgostasse as brincadeiras de correr, mas simplesmente preferia ficar deitado na rede vendo as coisas acontecer ao redor.

Hoje, na sua terceira década ainda mantinha seus momentos de isolamento, mas era bem disposto ao convívio social. Inclusive ganhará o título de ombro amigo, todos em sua volta confiavam nele, largos segredos e trambolhos de angústia. A sua predisposição ao silêncio permitia que sua escuta fosse ativa. Com o tempo foi se tornando cirúrgico, abria a boca quando necessário, e dessa forma arrancava verdades que muitas vezes não estavam prontas para ver o dia.

Demorou pra perceber que seus conselhos e comentários mais machucavam do que ajudavam, se tornou impaciente e afastava todos que tornaram-se dependentes das suas verdades.

O peso de medos, anseios, dúvidas, todos findados em seus ombros. Deveria aprender a lidar com isso, mas até lá cortaremos o mal pela raiz, pensou. E a partir de então evitava os conflitos, segurava seus conselhos pra si e ao ouvir algo imaginava-se transparente como o evento, tentando dessa forma que os problemas o atravessassem sem se deter em seu peito.

 

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Agressão

Vai, soca minha cara! Chuta minha barriga! Atira em mim, VAI!

Você não percebe que a cada tapa, soco ou lampadada que desfere contra mim, você está agredindo a sí mesmo? Ainda não entendeu que você tenta matar em mim a parte de você que te assusta? Está com medo do que?

Você não passa de um menino assustado, teme o que não entende.

Eu tenho pena de você.

Lamento que você não possa ser você mesmo. Se eu pudesse te pegar no colo e acolher toda essa angústia que alimenta seu ódio eu faria, mas não existe no mundo alguém capaz de lidar com isso além de você mesmo.

Esse seu ódio é responsabilidade sua e enquanto você não enxergar que quem está preso contra a parede se debatendo é você e não eu… Esse sentimento não vai passar.

Você não tem o direito de levantar sua mão pra mim.

Me matar não vai matar quem eu sou em você.

Simples assim.

Por isso você pode tentar me bater, me chutar e até mesmo me espancar.

Que ninguém, nem você, vai me dizer como amar.

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