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Antônio

Antônio era assim, branco de seus 35 anos e cara de poucos amigos. A barba rala lhe dava um ar largado, facilmente confundido por vagabundo pelas senhoras da boa sociedade. 

Antônio era dono de uma loja de discos, no centro da cidade. Reduto da juventude que a muito tempo ele deixou de contemplar. Vivia assim, ouvindo seus LP’s e conversando sobre música com as poucas pessoas que ele suportava.

Antônio não tinha filhos e nunca havia se casado. Seus pais moravam em outra cidade e secretamente, ele gostava disso. Agora ele estava numa fase meio blues e ouvia de tudo, mas sua favorita ainda era a Bessie Smith, embora ele não admitisse em voz alta.

Antônio era chato. Ele não gostava das coisas que a maioria gostava e tinha lá suas manias. E pra ser sincero a única coisa que fazia Antônio sorrir, era quando a calcinha que usava por de baixo da calça jeans, atolava.

Assim vivia Antônio, com a calcinha cavada no cú ao som de “St. Louis Blues”.
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Presente


Sento agora no alto de um edifício de três andares. Atrás de mim a lua se faz crescente.  Encanta-me o anoitecer dessa cidade.  O sol parece gostar muito daqui durante o verão, ele só cai na margem do mundo lá pelas oito e meia da noite. Noite que aqui ainda é dia, engraçado, não? 
A cidade aqui é quieta, ainda mais se comparada à selva de pedra. Existe barulho, claro, mas a ausência daquele som distante, som de gente correndo, essa ausência faz a cabeça ficar mais leve.
Venta agora e o escuro vai tomando conta. Tem um cheiro de páprica doce bem forte, deve vir do bar que fica no primeiro andar desse edifício. Aqui do alto é possível ver as tevês ligadas no jornal nacional. Uma senhora se empenha em olhar pela janela e no outro prédio um homem permanece parado em frente a uma planta. O que ele faz?
Escureceu mais e parece que o vento gostou disso, pois ele passa mais forte por entre meus braços. Risadas de bar podem ser ouvidas. Tem uma árvore que parece dançar com o vento e de repente uma andorinha passa por mim num rasante. Espanto-me e sorrio. A minha direita tem um casal na varanda, não consigo ver mais do que as silhuetas, mas acredito ser um casal mais velho. Conversam. 
O homem ainda está encarando a planta. E no meio de tudo isso, entre outro rasante e as estrelas que brotam do céu, eu estou feliz.
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Medeixa

Mouvement I (Kandinsky)
Deixa-me contemplar o mar sem presa de voltar pra casa
Deixa-me sentir as ondas quebrando em meu peito
Deixa-me sentir a brasa me aquecer em vida
Quero este estado de pensamento e corpo livre
Sentir o pé afundar na areia como a mão de uma francesa que afunda num saco de feijão
Quero o cheiro de tempero do mercadão
Sentir na língua o gosto da sua pele morena salpicada com páprica picante
Deixa-me fundir os meus sentidos e viver assim como Epicuro quis
Deixa-me ver a lua brilhar solteira no céu azul
Deixa-me brincar de ser feliz
Como cada gota de orvalho que chegando ao chão se explode em euforia. Pequenos fogos de artifício.
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Uma carta para “O” macho

 

Vejo homens perdidos entre suas próprias espadas, lançando tiros de espingarda, cuspindo no chão. Ser macho é isso então? Um punhado de feições rudes e ásperas desilusões.

Ser homem é isso então? Pois então, sou homem de contramão. Não preciso ranger meus dentes para me mostrar valente.

Tirar seu sangue a murros, me expor em alguns muros, suar e estar sujo. Ser pai é isso então? Fugir da mãe pra puta e depois voltar correndo sem ter coragem de dizer qual mulher que quer na mão. Ser ômi é isso então?

Arrancar os dentes de algum demente, partir a foice corações como quem estripa uma mulher. Seu pau serve pra isso então?

Aos homens brasileiros, machitas, violentos, desrespeitosos e normativos. As mulheres brasileiras que se permitem o soco sem requerer justiça e espalha o orgulho de um filho macho pelo mundo. Aos pais que sangram as doenças entre as coxas de tantas outras. As mães que mostram as suas filhas as sete formas de se ter um homem que não lhe respeita, mas te alimenta.

Ao povo que assiste a este massacre calado, que não se levanta contra as ondas sangrentas do machismo tupiniquim. A população que permanece calada e assiste sentada as mortes frias da televisão.

Não preciso de pinto, não preciso ser homem, não preciso estar macho… Me conjugo em outro verbo caso seja necessário.

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Uma carta para o ano que vem.

Existem pessoas e situações que te gritam cheque. Estes fazem movimento na vida, a essência sutil e tênue da vida. Penso em alternativas que impeçam o mate.

Ralamos muito ao longo das nossas vidas, vidas consumidas em anos. Anos que voam muito nos dias de hoje, dizem os jornais, mas acho que sempre foi assim. Estes anos sempre passaram rápidos, nós é que dávamos menos valor a isso.

Quando você começa a perceber as folhas caindo como em um outono acobreado, você se percebe maduro e amadurecendo. Como uma boa garrafa de vinho é necessário tempo para ficar pronta e completar um brunt sofisticado, seguido de uma textura cheia de personalidade. O mundo é governado por sábios.

Evoluir, se tornar melhor, viver… Não é uma questão de ser bom ou mal, de fazer é coisa certa. Não sei se as nuvens no céu tem este preço de benevolências, mas penso no quão fantástico um ser humano pode se tornar. Deixar sua marca no mundo não é fácil, minha avó não lançou livro, filmes, receitas. Mas meu mundo se encontra repleto de suas marcas e histórias.

São essas as peças que contam, passei por muita coisa assim como a todos durante este 2011 e gostaria de aprender ainda mais o valor do silêncio. Namastê.

Liniers Macanudo