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Bento

Era uma manhã de sol que virou tarde de chuva, a brisa verde saia de sua boca e se misturava com as cores mistas que só um dia como esse oferece.

Bento estava na sacada contemplando a dança entre o sol e chuva que se formava. Enquanto se arrumava pra romper o casulo da manhã e por os pés na rua. Chamou um carro.

Tamanha foi sua surpresa ao entrar e ouvir os primeiros acordes de My Funny Valentine do Sinatra. Por um minuto achou que sua vida tinha se tornado um musical hollywoodiano, em que ele e o motorista faziam um dueto com a banda ao fundo.

O carro ia depressa enquanto Bento e o motorista trocavam figurinhas sobre cantores de outrora. Dia incomum, pensou Bento (e o motorista também).

Desceu em frente a um café com a chuva já tocando o chão. Pediu um chocolate quente, uma água fora do gelo e escreveu em seu celular uma história, uma reprodução lúdica do dia que teve até o dado momento. Chamou seu protagonista de Pedro.

Ao terminar sua escrita encostou a boca na taça de chocolate, que ainda estava quente.

coisas

Meu primeiro beijo gay

Eu tinha 16 anos, um moicano com tonalizante vermelho, usava uma camiseta preta com uma caveira com a língua pra fora, uma jeans surrada e um par de all stars.

Eu estava com alguns amigos na paulista durante a Parada Gay de São Paulo, quando o trio elétrico da A Loca, passou por nós. Era o único trio que tocava um pouco de rock então eu deixei meus amigos e fui pra trás do trio dançar.

Quando percebi um homem com o cabelo liso e comprido atrás de um trenzinho  vindo em minha direção. Ele me olhava. Eu sorri. Deu pra ver seus neurônios repensarem diversas vezes se deveria ou não me beijar, eu era “tão novinho”. Me beijou. Foi tão certo. Meu corpo finalmente se encaixou. Na época eu não usava barba então a pele áspera do rosto dele arranhou minha pele lisa. Os pelos do braço dele encostaram nos meus, nossos peitos e barrigas próximos e a língua dando piruetas dentro e fora das bocas.

Ele foi embora e eu fiquei, mudado, diferente. Olhei pra trás, para onde estavam meus amigos, todos héteros, e eles comemoravam e acenavam pra mim, dedões pra cima, sorriso no rosto.

Depois disso foi uma questão de “Leco 1, Leco 2, Leco 3 e 4… Caralho Leco, 5?!”.

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Green Man

No peito aquele vazio complacente que se segue inerte, não transborda e nem seca. Apenas palavras vagas e um sentimento tosco de normalidade. Minhas mãos cravam a terra e a sujeira embaixo das unhas não mais me incomoda. É como se o mundo tivesse virado algo mais simples, mas não por isso mais fácil.

Sinto a dor que tenho que sentir e não mais a aquela angústia sufocante que afoga. Estou removendo aquela voz incessante que me impede de chorar – “seja homem” – estou sendo, e minhas lágrimas seguem ao meu lado. Tenho aprendido a ser frágil.

Tive que ser guerreiro por muito tempo e não herói. Aquele que suja a mão de sangue, não por glória ou honra, mas porque precisa, pois esse foi seu caminho. As estradas mudam.

Existe um mito antigo sobre as faces do Deus, aquele que caça, aquele que cultiva e aquele que guia.

Acho que chegou a hora de baixar o escudo e deixar morrer para renascer, florir o que tiver que vir.

Contos, erotismo

Sobre Sexo e outras Coisas

Lembra dos meus olhos cruzando com os seus naquela meia luz?

Eu estava indo embora quando o verde dos teus olhos me pescou. Anzol sem isca.

Sua boca colou na minha. Você estava mais bêbado que eu e talvez por conta disso colocava a minha mão por de baixo da sua saia. Eu te dedei e alisei o seu saco com um sorriso bobo no rosto. Quase um adolescente no banco de trás do carro. Te levei pra casa e fudi contigo. O sol começava a ganhar espaço no quarto e a gente não dormia. O teu gosto perdurou por dias na minha língua.

Outro dia te vi no meio do bloco e atravessei um mar de gente só pra te abraçar e sentir sua bunda roçando no meu pau de novo. Fui te levar em casa e você me chupou no corredor do prédio. Eu queria te comer ali mesmo, mas dessa vez eu fui pra casa sozinho. Fiquei pelado com o ventilador no saco pra ver se passava esse fogo que você acende em mim. O vento alimenta as chamas.

Tive que gozar de novo entre meus dedos lembrando das minhas bochechas entre as suas nádegas brancas e de como você mordia o lábio enquanto meu dedo visitava cada centímetro do teu cu. Nossa como a gente encaixa gostoso aqui.

Adormeci melado das tuas lembranças.

Crises, Sem categoria

Ansiedade

Você tenta respirar fundo, tenta se concentrar apenas na sua respiração, daquele jeito que você aprendeu, que você sempre fez, mas tem vezes que a onda é tão grande que passa por cima de você.

Milhares de coisas passam pela sua cabeça ao mesmo tempo. Medos, anseios, dúvidas, angústias, alegrias, teorias, etc. Quando você se da conta nem respirando você está. Suas mãos e testa suam, seus olhos só enxergam o caos da sua mente e você sente seu corpo afogar num mar de emoções. Você está a deriva, em mar aberto.

Você pensa que é forte e que já passou por crises maiores. Você quer acreditar que é forte e que já passou por crises maiores. Você precisa ser forte e passar por só mais essa. Seu corpo inteiro pesa, você quer chorar e gritar. Grito mudo que ninguém ouve.

Segura firme o gelo entre as mãos e acolhe. O frio arde, mas você aguenta. Por favor passa, só dessa vez, passa sem levar minha sanidade contigo.

Na maioria das vezes ela passa, mas algumas vezes ela finco os pés no peito e fica.