Sem categoria

Desejo

Silêncio. Você está num lugar cheio de pessoas que conversam, bebem e se acariciam. Seus olhos só existem quando focam nos olhos do outro.

Você respira pelo nariz, enquanto o sorriso, originado da conversa entre os olhos, se ruboriza e demonstra em milésimos de segundos o desejo pelo outro.

Sua respiração segue lenta enquanto você disfarça, seus amigos mexem a boca de uma forma engraçada, mas você não entende uma única palavra. Volta seu rosto a procura do outro. Aqueles olhos, aquele sorriso, aquele corpo… Sua pele se arrepia e o espaço dentro da sua cueca é preenchido.

Olhos se cruzam novamente e passos são dados. Aproximação. A mão que vai no ombro na desculpa de falar no pé da orelha, o lábio que se morde ao ver a boca do outro abrir e fechar em gestos vocálicos, a risada interessada que joga a cabeça pra trás para evidenciar o pescoço e o cheiro do outro se misturando com o seu. Saliva. Um lábio que vai no outro. Um braço que envolve a cintura. Um abraço que enreda os ombros. Desejo.

Sem categoria

Cacto

Cacto,
Suculento espinho.
Feridas crescem como novas partes do seu ser.

Raizes grossas,
Resiliente planta.
Mudanças bruscas não te impedem de viver.

Areolas fortes,
Sustentam seus espinhos.
A todo ser é dado uma estrutura de defesa.

Mas ainda assim,
Dentro de seu corpo forte,
Guarda a riqueza do que lhe falta em volta.

Seus lábios machucam, mas a sede do seu beijo não termina.

Sem categoria

Um encontro despretensioso

Foi um encontro despretensioso, assim como o lugar escolhido, o Igrejinha, um bar na Fernando de Albuquerque, quase esquina com a consolação. era um espaço iconoclasta com luzes baixas e música alta.

Não era a primeira vez que ia naquele espaço, inclusive conhecia um dos garçons, um moreno alto, com sorriso simpático que além de pegar os pedidos flertava com todos e todas que ali frequentavam.

A conversa era boa, pelo menos isso, tinha saído com tantos caras com um papo meio bosta ultimamente, ou então homens que só falavam de trabalho, assunto gatilho para se lamentar, era muito bom ouvir e ser ouvido. Falaram de cinema, séries, tatuagem e etcetera. Ambos estavam interessados um no outro, mas era um interesse contido, discreto.

Pelo menos até o primeiro beijo. Foi faísca na certa. Riam, se acariciavam e aos poucos o que estava contido foi desabrochando, alargando, tomando conta do espaço, até o momento que o único caminho possível era o quarto.

O sexo começou no caixa mesmo, se encoxavam enquanto pagavam a conta. Depois a caminho do metrô beijos intercalados por passadas de mão rápida por entre as pernas, as bundas que pediam por agarrões e os lábios que se mordiscavam mesmo quando estavam separadas, cada um de um lado do vagão do metrô.

Quando chegaram no quarto não tinha espaço pra mais nada além da doce animalidade da qual fingimos domar. Cederam enfim a tentação das bocas cruas, ele mergulhou no poço escuro e tocou fundo o pomo que não era o de adão. Lhe cuspiu na boca e meteu com força. Ficaram ali por horas a fio. Gemidos em esse com som de xis, ele gostava muito disso.

Era um bom enamorado aquele, não fosse o fato de morar em outro estado, seguiram conversando e aguardam ansiosos até o próximo motivo para escrever outra crônica.

Dedicado a R.D.

Crônica

Sueli

Sueli era uma mãe de família. Casada com uma filha ainda pequena, Sueli vivia sua vida como todos nós, um dia após o outro. Seu ofício era próximo de casa e fazia natação, quando possível.

Trabalhava num escritório de design, era um ambiente moderno e caótico, um cabaret revisitado. A parede de tijolos ao fundo valorizava um grande neon rosa que dava profundidade aos objetivos e as pessoas presentes.

Um belo dia, indignada com a situação política do país, Sueli desabafou com seus colegas de trabalho sobre os entraves socioeconômicos que tanto a afligiam. Entre falas complexas, Sueli respira profundamente e diz:

O pior vocês não sabem, descobri que Otávio meu marido, pai de minha filha… Tem tendências de esquerda!

Enquanto solta o peso dos ombros, joga para trás do ombro esquerdo sua echarpe a fim de se proteger do golpe cômico do destino. Deposita a mão sobre o colo coberto e mais uma vez respira indignada.

Sueli era assim, uma mãe de família excepcional.

Sem categoria

Sobre uma noite tranquila de chuva

Era uma tarde, quase noite, chuvosa. Cervejas, conversas, música de pé de orelha e muitos sorrisos. Era um bom sábado de se passar assim, solto, leve, deixando as preocupações voarem entre as risadas em direção a rua onde o vento dissolveria aquele peito apertado.

Sentado na janela um leve toque no braço indicava um sinal de proximidade recém construída. Eram assuntos paralelos, mas o toque se fixava, como que a mão entrelaçada com força, que soa a palma e endurece os dedos. Ninguém queria abrir mão daquela sensação. Daquele carinho inconsciente mas que deixava a consciência altiva e querendo mais.

Beijos, carícias, respiros no cangote, aquele gemido calado pra não escapar pela porta do quarto. Tu-do re-su-mi-do em um sim-ples to-que.