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Nome da Coisa Posts

Acredita em mim

Acreditar. No final das contas tudo é uma questão de acreditar.

São dias perdidos acreditando em uma pessoa, anos perdidos acreditando numa instituição, décadas perdidas acreditando em um único jeito de vivenciar a vida; um script a ser seguido.

Mas como acreditar numa estrutura estática quando tudo se prova mutável?

Cada segundo as coisas mudam, eu mudo, você muda, germina, brota.

Como olhar para uma nova história e acreditar novamente em algo que já falhou? Falhou pra mim e pra você. Será que falha é a palavra certa?

Eu acredito todos os dias que seu cheiro e sua pele me faz falta ao acordar. Eu acredito que seu olhar cruzando o meu na mesa de jantar faz meu coração bater mais forte.
Eu acredito a cada segundo que eu estou contigo que você é aquela pessoa, companheira de longa data, que veio pra ficar. Eu gosto disso.

Mas como acreditar num modelo? Numa estrutura? Que não só limita a nossa existência, como tem erros crassos na sua execução.

Eu fico rodando em círculos apenas pra te dizer que eu to em dúvida sobre a forma e não sobre o conteúdo do nosso amor.



Espero que você me entenda.

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Dor

Fico feliz que você saiba o que é dor, pois dor como essa que a gente sente é difícil de superar, é como se alguém puxasse as suas entranhas e apertasse, mas não para por aí, passado um tempo, estas entranhas apertadas, são puxadas, esticadas e retorcidas.

Puxa-se com tanta força que sua garganta estica, seca, tornando impossível o som do grito. Suas lágrimas secam, nem tanto pelo esgotamento do choro, mas pela intensidade com que roem suas entranhas.

Te extirpam o ventre e as verdades, tudo exposto, ferida aberta. Suas vísceras espalhadas pelo chão, é assim que seres humanos quebram, não há cola no mundo que junto estes cacos além da nossa própria vontade. Ah! Como é difícil ter vontade.

Às vezes passam-se anos com os órgãos pra fora sendo carregados pelo chão como sacos, demasiadamente pesados para se carregar nas costas.

Talvez por um golpe do destino, talvez por uma gentileza qualquer do tempo você encontra essa vontade.

Colocar suas entranhas pra dentro, órgão por órgão, respirar finalmente com o pulmão no seu lugar. E só então ter forças para encaixar a última peça, seu coração, no lugar d’onde nunca deveria ter saído.

Nenhuma alma merece isso.

Mas mesmo ao mesmo tempo são tantas almas que sobreviveram a isso.

Nossos olhos ficam mais fundo depois disso.

E a gente sobrevive, ainda não sei bem como, mas a gente vive.

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Refrigerante sob a toalha de mesa

Já imaginou que o fato de você ser desastrado pode ser na verdade um super poder? Imagina se aquele copo cheio d’água caindo sob a toalha de mesa nova tivesse caído apenas pelo fato de que o conteúdo do copo lhe faria mal.

Seu desajeitamento perante o mundo na verdade fosse um sistema de defesa que te protege da má sorte. E você sempre achando que sua má sorte era ter a mão de manteiga. E se não fosse azar? E se de acordo com o efeito borboleta aquele vaso de violeta que se partia em mil pedaços tornou possível que o estudo da antimatéria fosse concluído e o salto tecnológico acaba-se com todas as guerras? Tudo por que você é desastrado.

Seria mágico não seria? Cada refrigerante virado na mesa construísse em você uma tolerância ao erro e torna-se você mais empático aos defeitos dos outros. Que moldasse em você a certeza de que o não acertar é tão valioso e necessário para o seu desenvolvimento e que as vezes pequenos erros evitam grandes decepções num futuro próximo.

E se tudo aquilo que sempre te magoou, aquela história que sempre doeu, aquele trauma que nunca passou, for um dos elementos que ajudou a estruturar o ser humano que você é hoje?

Acho que mais copos seriam derrubados, mais vasos seriam quebrados e o erro não seria assim, tão de mau grado.

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Os conselhos de Caio

Caio era um homem de seus 35 anos, cabelos castanhos, mas com fios nitidamente ruivos, o que pontuava o grisalho chegando. Sem barba e com leves olheiras, Caio tinha um corpo comum.

Caio sempre foi o mais quieto dos seus primos, não que desgostasse as brincadeiras de correr, mas simplesmente preferia ficar deitado na rede vendo as coisas acontecer ao redor.

Hoje, na sua terceira década ainda mantinha seus momentos de isolamento, mas era bem disposto ao convívio social. Inclusive ganhará o título de ombro amigo, todos em sua volta confiavam nele, largos segredos e trambolhos de angústia. A sua predisposição ao silêncio permitia que sua escuta fosse ativa. Com o tempo foi se tornando cirúrgico, abria a boca quando necessário, e dessa forma arrancava verdades que muitas vezes não estavam prontas para ver o dia.

Demorou pra perceber que seus conselhos e comentários mais machucavam do que ajudavam, se tornou impaciente e afastava todos que tornaram-se dependentes das suas verdades.

O peso de medos, anseios, dúvidas, todos findados em seus ombros. Deveria aprender a lidar com isso, mas até lá cortaremos o mal pela raiz, pensou. E a partir de então evitava os conflitos, segurava seus conselhos pra si e ao ouvir algo imaginava-se transparente como o evento, tentando dessa forma que os problemas o atravessassem sem se deter em seu peito.

 

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Agressão

Vai, soca minha cara! Chuta minha barriga! Atira em mim, VAI!

Você não percebe que a cada tapa, soco ou lampadada que desfere contra mim, você está agredindo a sí mesmo? Ainda não entendeu que você tenta matar em mim a parte de você que te assusta? Está com medo do que?

Você não passa de um menino assustado, teme o que não entende.

Eu tenho pena de você.

Lamento que você não possa ser você mesmo. Se eu pudesse te pegar no colo e acolher toda essa angústia que alimenta seu ódio eu faria, mas não existe no mundo alguém capaz de lidar com isso além de você mesmo.

Esse seu ódio é responsabilidade sua e enquanto você não enxergar que quem está preso contra a parede se debatendo é você e não eu… Esse sentimento não vai passar.

Você não tem o direito de levantar sua mão pra mim.

Me matar não vai matar quem eu sou em você.

Simples assim.

Por isso você pode tentar me bater, me chutar e até mesmo me espancar.

Que ninguém, nem você, vai me dizer como amar.

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