Categoria: Desabafo

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Desabafo, Dúvida, Vida

Ensaio sobre a dor

Existe uma dor que é percebida no peito, as vezes essa dor é tão grande que parece não caber em nossos corpos físicos, ela se agarra na parede dos músculos e aperta. Dor essa que deixa a boca seca e molha os olhos. A posição fetal aparece como reflexo dessa dor, o silêncio pesado do não saber. Sentimento de estar perdido, de não fazer parte, de não ter respostas, de não saber de si. O coração se contrai em dúvida, as costas pesam, as pernas doem e o mundo some entre a quase ausência da respiração. O nome dessa dor é angústia.

Sou

Sou aquele que não chora e que não pode chorar.
Sou aquele que te entrega a rosa, mas nunca recebe.
Sou aquele que assim como outros milhares, apenas fornece o pão.
Sou aquele que quando o pau falha tem a identidade roubada.

Sou aquele que sempre precisa estar ereto, mesmo quando não tenho vontade. Sou o mágico ser que está sempre pronto para te atender nos seus anseios e desejos, mesmo quando eu não tenho vontade. Sou o ser que só goza, mesmo quando eu não tenho vontade.

Eu sou um homem que como outros homens, fui limitado. Você veste minhas roupas enquanto eu só posso ficar nu.

Sou o sexo forte, que supostamente deveria arcar com a vida de uma família, mesmo ainda sendo um menino. Sou o forte que viu milhares de iguais morrerem nas trincheiras. Sou aquele que diante da morte deve entalar as lágrimas e cavar a fossa.

Sou a pessoa que há 2013 anos está presa a convenções que me incitam a digladiar. Sou aquele que é medido por números, posses e centímetros. Sou apenas um velho rico, um garanhão jovem e uma conta corrente ativa.

Sou eu que mesmo sofrendo com a vida que levo, devo engolir o choro e nunca!… NUNCA! Mostrar-me frágil, correndo o risco de ser exposto ao ridículo julgamento social e ser tomado como fraco, não importa quantos leões eu tenha matado.

Sou pai, filho, avó, primo, tio, estranho, homem do saco, palhaço, bandido, marido, neto, padrinho, afilhado, sobrinho, puto, vadio, viado e bicho.

Carrego na minha garganta o sinal da minha maldição, osso do meu antepassado, que pra não ficar sozinho, cedeu até uma costela.

Sou o deus de uma sociedade hipócrita, que não aguenta mais os espinhos.

**Texto produzido para a terceira edição da Revista Rosa.

Vênus em Peixes


Lembro que quando era pequeno tinha mania de jogar a cabeça pro lado ou ainda de dar bananeira quando eu procurava alguma coisa e não a encontrava, eu olhava em lugares ilógicos como, por exemplo, encontrar o controle remoto dentro geladeira.

É engraçado relembrar isso, pois é um hábito que se manteve de forma discreta. Há pouco tempo percebi que mantinha esse jeito de ser, pois acharam engraçado eu jogar minha cabeça pro lado e olhar pra frente como se estivesse dando um zoom nos olhos. Era como se eu virasse um pinball de lado para a bolinha se desprender.

Em todo o caso esses pequenos hábitos loucos e já imperceptíveis para mim me fizeram entender que não existe uma busca por algo externo a você mesmo. É engraçado contradizer a ideia normativa de se ter um relacionamento, mas é real.

Não quero alguém que me complete, pois a metade de mim sou eu inteiro, sou e existo independente de outro ser humano, o irônico é que justamente essa percepção, que torna interessante estar com outro ser humano. Não se procura uma metade, vive-se com um inteiro.
Conto, Desabafo, Vida

Era uma casa muito engraçada


 
São fantasmas que vagam por entre minhas paredes, eu renovada, mas antiga. Muito já se passou em mim, mas hoje vivem os espectros que são visíveis pelas frestas das portas.

Imprudências, assédios, tristezas e angústias. Alegrias também aconteceram aqui, mas depois de um tempo os tijolos pesam tanto que eu sedimento. São demônios incrustados entre as camadas de tinta que me renovaram.

Existem vazamentos e lutas homéricas contra as pragas. Sou um edifício aberto, com uma luz agradável e uma brisa leve, mas os anos me consomem e embora permaneça estética minha origem se esconde entre constantes reformas.

Ouço fantasmas, seus passos e seus gemidos. Seres que transam estupidamente entre minhas paredes e ignoram minha sólida existência. Beijos trocados com outro por aqueles que usavam meus espelhos para aprender o toque dos lábios.

Às vezes avarandar, outras vezes demolir.
Amor, Desabafo, Poema, Vida

Coisas

Foto André Medeiros Martins
Existem coisas que me dão uma noção vaga de sentido na vida.

O sabor que toma a boca, o suco da fruta que escorre pelo queixo, o cheiro do seu corpo nos meus dedos, o sol que entra pela janela de manhã, as estrelas pintadas no céu, a chuva que avisa antes de cair e a brisa que me toca quando menos espero.

São coisas singelas, eu sei, mas são coisas, minhas coisas, coisas que me fazem bem.

Como acordar no meio da noite e perceber que, mesmo separados, você encontrou um jeito de quedar-se entre meus braços sem me despertar.