Crises, Sem categoria

Ansiedade

Você tenta respirar fundo, tenta se concentrar apenas na sua respiração, daquele jeito que você aprendeu, que você sempre fez, mas tem vezes que a onda é tão grande que passa por cima de você.

Milhares de coisas passam pela sua cabeça ao mesmo tempo. Medos, anseios, dúvidas, angústias, alegrias, teorias, etc. Quando você se da conta nem respirando você está. Suas mãos e testa suam, seus olhos só enxergam o caos da sua mente e você sente seu corpo afogar num mar de emoções. Você está a deriva, em mar aberto.

Você pensa que é forte e que já passou por crises maiores. Você quer acreditar que é forte e que já passou por crises maiores. Você precisa ser forte e passar por só mais essa. Seu corpo inteiro pesa, você quer chorar e gritar. Grito mudo que ninguém ouve.

Segura firme o gelo entre as mãos e acolhe. O frio arde, mas você aguenta. Por favor passa, só dessa vez, passa sem levar minha sanidade contigo.

Na maioria das vezes ela passa, mas algumas vezes ela finco os pés no peito e fica.

Crônica

Oceano

Foi sentado numa duna olhando o mar que eu entendi. Aquele sentimento que bate no peito toda a vez que meus olhos cruzam com a imensidão azul.

Gratidão, paz, acolhimento, pertencimento, etc. Entendo a fixação de Neruda pelo mar, seus joguetes de palavras, suas cadências em ondas, seu ritmo de remo em cada sentença.

Darwin presumiu que evoluímos, que num momento longínquo da história dividimos o mesmo útero com todos os outros seres, o oceano. Talvez seja por isso todos esses sentimentos que se resumem em clichês, esses momentos de inspiração, aquele conforto de dormir semi nu cercado de areia. Tamanha a segurança que sentimos diante dessa deusa com seu véu azul que estoura em conchas.

Mãe, rainha e criadora, obrigado pela vida que me deste e obrigado pelo dom de tecer palavras assim como aqueles pescadores que colhem em rede seus frutos.

Obrigado por dar-me o pão e a água.

Obrigado por me ensinar a fazer parte.

Obrigado por me deixar te amar.

coisas

Separação

Num dia você está pregando pregos na parede, escolhendo móveis para ocupar os espaços vazios e no outro suas coisas estão em sacos e caixotes na calçada e anos de um relacionamento se fecham no porta-mala de um carro.

As mãos se separam, as bochechas se molham, o coração aperta.

Após dividir minha vida com alguém durante tanto tempo e ter que seguir meu caminho sozinho, o pior dia pra mim passou a ser o domingo, silencioso e tedioso domingo. O relógio corre devagar demais e a cada minuto uma nova armadilha se apresenta.

Ressignificar esse dias vai levar mais tempo do que eu imaginei.

Você sente falta de se deitar no sofá e olhar a janela enquanto pessoas brincam na quadra da pracinha a frente, sente falta dos quadros que não foram pendurados, do espelho do banheiro, do jeito que a água do chuveiro caia no seu corpo. Não, não são simples saudades de objetos, são saudades do tempo que foi dedicado, do carinho que foi pensado para cada um daquelas bugigangas.

Saudade de chegar em casa e ter com quem conversar, mesmo sabendo que aquela amizade pode nunca mais voltar a ser.

Com a distância você aumenta o volume das suas vontades que a muito foram abafadas pela esperança da reconciliação e vai percebendo o quanto tu se sacrificou, cedeu, engoliu, pra tentar ser feliz. E não importa quanto as pessoas digam que tudo vai ficar bem, você segue mal, o que não quer dizer que você não irá sobreviver, muito pelo contrário.

Sabe quando você quebra a perna e fica mancando, mas com o passar do tempo isso torna-se o normal? E quando você tira o gesso e em menos tempo ainda você percebe o padrão de normalidade mudando de novo?

Só assim pra entender que normalidade não é um conceito sólido.

Você se sente sozinho, você se sente angustiado e até um pouco diminuído. Você acha que todos os teus amigos te olham com aquele olhar de “coitado”, mesmo que não o façam, você ainda acha. Você se culpa por não ter sido mais forte, mais paciente, mais tolerante, que talvez se tivesse esperado um pouco mais as coisas teriam se acertado. Tudo isso ao mesmo tempo que você se sente livre, que entende que deu o seu melhor.

Terminar uma história nunca é fácil, fácil mesmo é terminar um texto.

*** Texto postado originalmente em – http://www.welove.com.br/separacao/
Crônica

Memória

Brisa suave de verão, cerveja gelada, som de samba ao fundo, um pedaço do erre jota em Porto Alegre.

Sabe aqueles momentos em que sua mente te leva prum lugar tão bom que o sorriso se esboça involuntariamente no seu rosto?

Lembranças guardadas num lugar de carinho, aquela sensação boa de acolhimento e pertencimento. Momentâneo sim, mas não por isso menos real. Me faz feliz perceber que conforme o tempo passa mais vivências como essas se acumulam no lobo temporal medial. Você vai percebendo como a vida se construí através de uma jornada única que é de inteira responsabilidade sua. Vivendo e aprendendo. E lá vai outro sorriso arquear os lábios.

É engraçado assistir os efeitos do tempo em seu corpo enquanto você vai construindo essas lembranças. Os pelos embranquecendo, você envelhecendo e se encontrando de novo e de novo, sempre procurando você no presente e usando o passado como mapa pra saber onde teu coração aperta ou se enche e assim ter um palpite de qual caminho seguir.

Ainda falta muito pro sol se pôr, o samba ainda não acabou e a cerveja segue gelada. Acho que fiz mais uma memória.

Carta

Uma carta aos que tem mais de 40

Olá, tudo bem? Aqui as coisas estão mais ou menos, até por isso lhe escrevo.

Quem vos fala é um homem de seus quase 29 anos, que aproveita o momento chave na vida para relembrar as palavras de Elis, a quem já entrou nesse novo mundo de maturidade, “O novo sempre vem”.

A verdade é que me aproveito da minha posição privilegiada, de adulto jovem, para conversar com você, que já chegou ou passou dos 40. Ao longo dos anos eu vi você ter que ficar cada vez mais no presente, em como gerenciá-lo, ajustá-lo, organizá-lo, enfim prestar manutenção ao hoje e estar certo de que tudo funciona. Acredite eu vi bem e acho essa tarefa linda e extremamente necessária para a humanidade.

O problema é que, quando estamos focado na manutenção do agora dificilmente enxergamos as possibilidades e as alternativas que o futuro nos trás. Até porque o dia só tem 24 horas, não é mesmo?

É por isso que eu gostaria de reforçar a vocês que “O novo sempre vem”, não porque eu seja um hippie chato, um eco chato, um jovem chato, mas só porque eu entendo que as respostas pro nosso hoje estão no amanhã dos mais jovens que eu.

Por isso gostaria de propor um desafio, e se a partir de hoje, quando um jovem falar de uma ideia você realmente ouvisse? Eu entendo que você está acostumado a tornar real, mas algumas ideias ainda são embrionárias e não tem um ambiente favorável para serem maturadas, até mesmo porque isso precisa de tempo. A verdade é que focados no hoje não percebemos os erros que cometemos, ou ainda uma forma mais sustentável de fazer as coisas.

Nossa vantagem é que temos o jovem para olhar pro amanhã e nos alertar dos males que virão. Então por favor, você que já passou dos 40, por mais difícil que seja, ouça os jovens. Vejam pelos olhos dele, enxerguem as lutas que eles estão lutando e tentem, por favor, entender. Prometo que assim nosso futuro hoje será melhor do que o agora que hoje temos.

Abraços repletos de carinho e gratidão pelo trabalho tão importante que vocês executam.

*PS: Ao divulgar esse texto recebi alguns comentários questionando a minha associação do comportamento conservador as pessoas com mais de 40 anos. A verdade é que considerei os dados demográficos das eleições para prefeitos de 2016, nesse cenário o recorte demográfico que elegeu candidatos de extrema direita ao longo do país iniciava nesta idade. Uma das sugestões era de alterar o título para “Uma carta aberta aos Conservadores”, pois afinal eles tem qualquer idade, mas preferir manter o texto associado a idade com base na demografia que deu origem a carta para efeito literário.