Desabafo, Dúvida, Vida

Ensaio sobre a dor

Existe uma dor que é percebida no peito, as vezes essa dor é tão grande que parece não caber em nossos corpos físicos, ela se agarra na parede dos músculos e aperta. Dor essa que deixa a boca seca e molha os olhos. A posição fetal aparece como reflexo dessa dor, o silêncio pesado do não saber. Sentimento de estar perdido, de não fazer parte, de não ter respostas, de não saber de si. O coração se contrai em dúvida, as costas pesam, as pernas doem e o mundo some entre a quase ausência da respiração. O nome dessa dor é angústia.
Poema

Gin com Tônica

Foi no segredo do teu copo que eu encontrei o teu olhar.
Foi no gole seco e cheio de histórias que eu te vi passar.
Equilibrista do meio fio a cambalear.
Dançarina sem ritmo que no faltar da música  pois se a cantar.
 
Cantando a magoa do peito aberto,
Chorando Gin na esquizofrenia de seu sorriso.
Ela flutuava entre os paralelepípedos.
 
Litro por litro e Grand Jeté.

 

Coisa, Crônica, Diário, Vida

Três Minutos

São três e trinta e sete da manhã. Noite quente de verão, na rua passa dos 30 graus. Acordei a pouco devido ao calor, minha mente não conseguiu aliviar a tensão e se permitir cair nas graças do inconsciente.

Faz tempo que não escrevo, os dedos parecem estar um tanto quanto enferrujados. Uma gota de suor roda por de trás do meu joelho e chega rápido ao meu calcanhar. São três e quarenta da manhã, já tomei um banho gelado e nada. Sempre durmo nu nessa época do ano, qualquer micro centímetro de tecido além do lençol faz com que meu corpo mine.
 
Noite turva hoje, não consigo ver o céu direito, mesmo com as luzes apagadas do lado de fora, poucas estrelas brilham. Volto pra frente do ventilador, são três e quarenta e três, eu aumento a sua potência e sinto o vento artificial brincar com os pelos do meu peito.
 
Caminho até a geladeira e procuro por algo que não existe, ansiedade, acabo por me contentar com uma imensa garrafa d’água. Engulo tudo e deixo escorrer um pouco pelo meu corpo, confesso que desde criança amo a sensação d’água gelada encontrando o caminho pela minha pele até o chão. São três e quarenta e seis.
 
Já escrevi tantas histórias ao passar dos anos, chega uma hora que parece que seu corpo seca. São três e quarenta e nove. As histórias não fazem mais parte de ti, talvez seja hora de ser menos Frida Kahlo e mais Salvador Dalí. Talvez … 
 
Minha bateria logo vai acabar, acho bom ficar por aqui. São três e cinquenta e dois de uma madruga tão quente que me despertou.
* Imagem por Derek Fernandes.
Nome da Coisa

Nome da Coisa

Deixei de sujar as mãos com a tinta da caneta esferográfica, que recebe esse nome pela pequena esfera que reside em sua ponta; deixe de registrar o mundo através das minhas fotografias, que recebem este nome por se tratar de um registro visual produzido pela infiltração da luz em uma câmera escura onde reside uma superfície sensível; deixe de viver em São Paulo, que tem esse nome pois o colégio que viria a dar origem a cidade foi inaugurado no dia 25 de janeiro, dia em que a igreja católica comemora a conversão do Apóstolo Paulo, deixei de me preocupar com os outros, pois eu precisava encontrar o Leonardo, que o nome significa Leão Valente e tem origem germânica; Deixe tantas coisas pra trás, coisas que não tem necessariamente um nome, nomes que não necessariamente representam coisas. São coisas sem nome, são nomes para as coisas.