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Nome da Coisa Posts

Vitrola

Eu por Regina Vilela

Cresci entre sons opostos e paisagens diversas, enquanto numa vitrola Joplin cantava as injustiças de uma vida, na outra o lamento do fado de minha avó tocava. Nem dois passos eu dava e lá estava os acordes de uma guitarra a se misturar com o som da cuíca.


Lembro de olhar entre as grades brancas do portão enferrujado a bateria da Nenê  que descia aos domingos. Recordo ainda do cheiro de peru, da letria na mesa de natal, da calda que escorria do manjar e do bordo do vinho a contornar a taça em movimento.


Recordo da água com açúcar, do beija-flor, das violetas, da hortelã que nascia ao pé do limoeiro e do barulho da máquina fotográfica mudando o frame.


Foi exatamente toda essa oposição, toda essa lacuna, que me fez assim, meio passado / meio futuro.

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Pedra, Papel e Tesoura

Eu por Regina Vilela

Abri os olhos, o ar entrou em meu pulmão, expandindo minha caixa torácica me dando uma sensação de rompimento forte, chorei. Desde que com a garganta narrei minha primeira dor, como quem já soubesse o caminho cortei o cordão que nos ligava instintivamente. Cresci e com isso vieram as mudanças, e com elas mais cortes em cordões que me ligavam a grande árvore da minha história.
De repente, o processo virou hábito, cortava sem ao menos perguntar por que, sem necessidade de um motivo, cortava como se aquele fosse um movimento de inércia que nunca findava, me sentia como Eduard com suas lâminas afiadas e frias. A cada corte um galho caia, uma história se ia, uma lembrança partia.
Foi cortando impetuosamente minhas linhas e meus cordões que me vi pelado em meio a floresta que se fazia noite ao meu lado. Ao redor os restos de uma história em cacos. Quando dei por mim o quebra cabeça estava feita aos meus pés.
Minha cabeça em silêncio gritava: “Aquele que sempre soube usar a tesoura, agora terá que aprender a usar a cola”.

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O contador de nuvens

Foto por Leco Vilela

Ele andava distraído como quem conta as nuvens do céu, caminhava pelas ruas desertas de uma cidade cheia de vidas. O sol lhe batia leve no rosto transformando seus olhos em faróis castanhos a ilustrar seus passos. Um sorriso leve lhe dominava a face.


Andava com as mãos nuas a balançar como um pêndulo para fora dos bolsos. O movimento hipnotizava o olhar do outro. Este caído pela beleza dos faróis castanhos, se viu obrigado a seguir os passos daquele que o encantaram. Passos rápidos e respiração ofegante. O admirador hipnotizado alcançou o contador de nuvens através do toque, um leve toque nas mãos.

Recebeu o toque sem susto, olhou através do olhar de seu admirador e sorriu. Sorriu como se já conhecesse o toque que se fazia presente. Entrelaçaram os dedos e caminharam juntos pela cidade vazia.
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Domingo

Neste domingo eu acordei mais cedo, um horário normal para os dias da semana que correm, mas cedo para um domingo quieto.

Sentei no sofá e como de costume, tomei meu café agarrado nas minhas próprias pernas, como um contorcionista a brincar de nó humano, salvo as devidas proporções, é claro! 

Café tomado, eu precisava sair do meu nó, a inquietude pairava sobre mim e me mostrava a rua, eu precisava ver a rua, ver o céu além da estrutura da janela de minha sala.

Troquei-me de pressa como de um salto, desci o elevador e peguei minha bicicleta em meio aos motores sedentos de petróleo. Sai pedalando forte pela rua vazia de uma São Paulo que ainda dormia. O vento forte vinha de encontro ao meu peito me causando arrepio e me deixando vivo.

Andei, corri e até voei. E nesse devaneio real, cheguei ao parque, passei entre ciclistas e pedestres, ouvi um jazz bem tocado, deitei na grama ensolarada e cochilei deitado entre folhas caídas de outono. Tirei fotos com os pássaros e pensei, pensei nessa vida que corre pelas ruas de São Paulo.

Vivi até chegar à hora de mais um ensaio. Sai de um sonho findado em realidade para a realidade de fazer sonhos. E no fim das contas, era só mais um domingo.
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O homem invisível

 
Penso em um homem ultimamente, ele usa um terno preto, uma camisa branca com a gola aberta, seus sapatos brilham. Ele tem o corpo suave, simples, másculo. Seu cabelo é negro e seu queixo largo.

O procuro entre os corpos da paulicéia e não o encontro. Não sei seu signo, seu nome, seu endereço. Eu nem o conheço. E mesmo assim vejo-o, desejo-o e sinto-o ao fechar meus olhos.

Sonho com ele a cruzar a rua, com a voz roca a soar leve em minha nuca. Quem é você?

Quem sou eu? Eu que espero por um homem invisível. Um homem feito de um sonho capturado pelas minhas pupilas cerradas.

Quem és tu?… Tu és o nada.

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